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Reinaldo Azevedo

Alguns dos maiores juristas do mundo mandam Lava Jato para o banco dos réus

Reinaldo Azevedo

12/08/2019 06h57

Luigi Ferrajoli: jurista italiano, um dos signatários do artigo, é tido hoje como o mais importante garantista do mundo

Leiam abaixo o artigo em que alguns dos maiores juristas do mundo sustentam que, em razão dos desmandos e descaminhos da Lava Jato, "a Justiça brasileira vive atualmente uma grave crise de credibilidade dentro da comunidade jurídica internacional".

Para esses juristas, "não há Estado de Direito sem respeito ao devido processo legal. E não há respeito ao devido processo legal quando um juiz não é imparcial, mas atua como chefe da acusação."

Leiam a íntegra.

Lula não foi julgado, foi vítima de uma perseguição política

Nós, advogados, juristas, ex-ministros da Justiça e ex-membros de Cortes Superiores de Justiça de vários países, queremos chamar à reflexão os juízes do Supremo Tribunal Federal e, mais amplamente, a opinião pública do Brasil para os graves vícios dos processos movidos contra Lula.

As recentes revelações do jornalista Glenn Greenwald e da equipe do site de notícias The Intercept, em parceria com os jornais Folha de São Paulo e El País, a revista Veja e outros veículos, estarreceram todos os profissionais do Direito. Ficamos chocados ao ver como as regras fundamentais do devido processo legal brasileiro foram violadas sem qualquer pudor. Num país onde a Justiça é a mesma para todos, um juiz não pode ser simultaneamente juiz e parte num processo.

Sérgio Moro não só conduziu o processo de forma parcial, como comandou a acusação desde o início. Manipulou os mecanismos da delação premiada, orientou o trabalho do Ministério Público, exigiu a substituição de uma procuradora com a qual não estava satisfeito e dirigiu a estratégia de comunicação da acusação.

Além disso, colocou sob escuta telefônica os advogados de Lula e decidiu não cumprir a decisão de um desembargador que ordenou a liberação de Lula, violando assim a lei de forma grosseira.

Hoje, está claro que Lula não teve direito a um julgamento imparcial. Ressalte-se que, segundo o próprio Sérgio Moro, ele foi condenado por "fatos indeterminados". Um empresário cujo depoimento deu origem a uma das condenações do ex-presidente chegou a admitir que foi forçado a construir uma narrativa que incriminasse Lula, sob pressão dos procuradores. Na verdade, Lula não foi julgado, foi e está sendo vítima de uma perseguição política.

Por causa dessas práticas ilegais e imorais, a Justiça brasileira vive atualmente uma grave crise de credibilidade dentro da comunidade jurídica internacional.

É indispensável que os juízes do Supremo Tribunal Federal exerçam na plenitude as suas funções e sejam os garantidores do respeito à Constituição. Ao mesmo tempo, esperamos que as autoridades brasileiras tomem todas as providências necessárias para identificar os responsáveis por estes gravíssimos desvios de procedimento.

A luta contra a corrupção é hoje um assunto essencial para todos os cidadãos do mundo, assim como a defesa da democracia. No entanto, no caso de Lula, não só a Justiça foi instrumentalizada para fins políticos como o Estado de Direito foi claramente desrespeitado, a fim de eliminar o ex-presidente da disputa política.

Não há Estado de Direito sem respeito ao devido processo legal. E não há respeito ao devido processo legal quando um juiz não é imparcial, mas atua como chefe da acusação. Para que o Judiciário brasileiro restaure sua credibilidade, o Supremo Tribunal Federal tem o dever de libertar Lula e anular essas condenações.

– Bruce Ackerman, professor Sterling de direito e ciência política, Universidade Yale

– John Ackerman, professor de direito e ciência política, Universidade Nacional Autônoma do México

– Susan Rose-Ackerman, professora emérita Henry R. Luce de jurisprudência, Escola de direito da Universidade Yale

– Alfredo Beltrán, ex-presidente da Corte Constitucional da Colômbia

– William Bourdon, advogado inscrito na ordem de Paris

– Pablo Cáceres, ex-presidente da Suprema Corte de Justiça da Colômbia

– Alberto Costa, Advogado, ex-ministro da Justiça de Portugal

– Herta Daubler-Gmelin, advogada, ex-ministra da Justiça da Alemanha

– Luigi Ferrajoli, professor emérito de direito, Universidade Roma Três

– Baltasar Garzón, advogado inscrito na ordem de Madri

– António Marinho e Pinto, advogado, antigo bastonário (presidente) da ordem dos advogados portugueses

– Christophe Marchand, advogado inscrito na ordem de Bruxelas

– Jean-Pierre Mignard, advogado inscrito na ordem de Paris

– Eduardo Montealegre, ex-presidente da Corte Constitucional da Colômbia

– Philippe Texier, ex-juiz, Conselheiro honorário da Corte de Cassassão da França, ex-presidente do Conselho econômico e social das Nações Unidas

– Diego Valadés, ex-juiz da Corte Suprema de Justiça do México, ex-procurador-Geral da República

– Gustavo Zafra, ex-juiz ad hoc da Corte Interamericana de Direitos Humanos

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.