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Reinaldo Azevedo

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Governo erra ao demitir Segovia, cedendo à pressão de procuradores e de delegados; inexiste "pax" com o velho corporativismo

Reinaldo Azevedo

2027-02-20T18:23:31

27/02/2018 23h31

Segovia (esq.), o delegado que deixa o cargo na PF, e Galloro, o que passa a comandar

Todos sabem que acho Raul Jungmann um político responsável e competente. Fez um bom trabalho no Ministério da Defesa e assumiu agora a pasta extraordinária da Segurança Pública. Já expressei aqui a minha opinião. Penso que deveria ter sido nomeado, para a pasta, um general da ativa. De toda sorte, a indicação de Jungmann é positiva  porque tem trânsito, por óbvio, com as Forças Armadas. Por que isso é importante? Uma das tarefas da pasta será dialogar com Polícias Militares e Policias Civis de 27 unidades da federação, algumas, por exemplo, com taxas de homicídio bem superiores às do Rio. As PMs, por determinação Constitucional, são "forças auxiliares e reserva do Exército", como dispõe o Parágrafo 6º do Artigo 144. Ainda há pouco, endossei sem reparos uma afirmação do ministro, segundo quem os consumidores de drogas têm sua dose de responsabilidade na violência.

Assim, quem escreve não é um desses críticos fáceis desse ou de qualquer governo, que vão vomitando asneiras pelas pontas dos dedos. Ao contrário. Acho o governo Michel Temer virtuoso. Não fosse a militância absolutamente destrutiva de partes consideráveis da esquerda — que, curiosamente, está ajudando a levar Lula para a cadeia — e o protagonismo doidivanas de setores do Ministério Público Federal e da Polícia Federal (com reflexos no STF),  outra já seria a percepção da população sobre a gestão. Há uma determinação de tratar o governo aos pontapés, pouco importando o resultado que apresente.

Assim, dito isso, não move o meu teclado o espírito de porco. É que rejeito como o diabo à cruz — ou o anjo ao enxofre — o espírito de corpo. Por isso digo sem receio de errar: Jungmann fez muito mal em substituir o delegado geral da Polícia Federal, destituindo Fernando Segovia e nomeando para o seu lugar Rogério Augusto Viana Galloro, que era o segundo de Leandro Daiello, antecessor de Segovia.

Nada tenho nem contra quem entra nem contra quem sai. Nem de especialmente favorável. Não estou, portanto, fazendo uma espécie de escolhas a partir das qualidades de cada um. A menos que o ministro saiba de algo que não saibamos, o que o governo fez — e é certo que o presidente Michel Temer foi consultado — foi ceder à pressão de setores corporativistas da PF, do Ministério Público Federal e do burburinho de esquerda. O que havia contra Segovia?

Ah, ele era considerado próximo de Temer — agora que foi destituído do cargo, não é mais? — e concedeu a tal entrevista à Reuters em que disse que não há provas contra o presidente do caso da MP dos Portos. E, vejam vocês!, não há mesmo, certo? A partir daí , começou a gritaria pedindo a sua cabeça.

Roberto Barroso, relator no STF do caso, cobrou explicações do delegado. Raquel Dodge, em lamentável petição enviada ao ministro, cobrava que este determinasse que Segovia se abstivesse até mesmo de fazer comentários a respeito do caso, sob pena de perder o cargo. Tudo não passava de um exagero politiqueiro, sem sentido.

Ora, destituir Segovia e nomear, em seu lugar, o nome que conta com o apoio da corporação de delegados constitui, a meu ver, um erro político. Certamente o governo o fez para pacificar a turma. Muito pragmaticamente, pode ter pensado: "Melhor isso do que a crise". Gente que transita bem nos bastidores da PF me assegura que havia sinais de que a autoridade de Segovia se esgarçava.

Bem, se era assim e dado que o delegado não havia feito nada de impróprio, sua autoridade deveria ter sido reforçada, jamais o contrário. Compreendo que se queira baixar a tensão, nomeando aquele que é, por exemplo, o predileto de uma das corporações sindicais. Mas isso jamais deveria ter sido feito no dia seguinte ao documento enviado por Raquel Dodge ao próprio ministro Barroso. A coisa não me parece certa em si — não havendo alguma bomba oculta contra Segovia, claro! —, e sempre há o risco de a turma ficar viciada em sangue. Sabem como é… Quando conseguem uma cabeça, logo querem outra, e outra, e outra.

Mais: a decisão acaba reforçando a suspeita de que o delegado-geral que sai estava a fazer algo de impróprio em defesa de Temer. Sim, a ilação embute um erro lógico evidente, não é? Se o próprio presidente está fazendo a substituição, por meio do ministro da Segurança Pública, então é bem provável que não mantenha com o defenestrado nenhuma relação especial, à diferença do que se vocifera por aí. Essas coisas têm a sua própria dinâmica e fogem ao arrazoado lógico. Eu mesmo já ouvi de pessoas que estariam obrigadas a ter o pensamento um pouco mais complexo o seguinte: "Ah, tá vendo, bem que falavam que Segovia era muito próximo ao governo… " Santo Deus! Ele perdeu o cargo por decisão do próprio presidente.

Assim, resta uma lição: este governo nem outro qualquer devem atuar com o fito de ser amado, mas também não deve temer a repulsa de certos nichos, que se aproveitaram da crise para ocupar um papel legal e institucional que não lhes pertence.

O currículo de Galloro o habilita para o cargo. Ocorre que não estamos diante de uma questão a ser resolvida por um "headhunter". A menos que se entenda por isso "cassar (com dois esses mesmo) cabeças", não "caçar talentos"…

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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