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Reinaldo Azevedo

Artigo de Singer, do PT, sobre Marielle vê falência da democracia e ajuda a explicar parte do ódio em curso ao partido e a Lula

Reinaldo Azevedo

17/03/2018 08h37

André Singer está se transformando numa espécie de símbolo do PT que insiste em não esquecer nada e em não aprender nada. Escreve um artigo na Folha neste sábado em que a sintaxe apanha, coitada! Atenção, professor: "Nem uma coisa nem outra ACONTECERAM" — e não "aconteceu". A sua gramática política, no entanto, e bem mais errada.

Já começa pelo título: "Assassinato de Marielle representa o fracasso da democracia"

É? Já que as palavras fazem sentido, estamos obrigados a concluir que é precioso pôr fim à democracia para que as Marielles não morram.

"Ah, Reinaldo, não exagere; ele não tentou dizer isso…"

Foi além de tentar. Ele disse.

No texto de Singer, o assassinato da vereadora também evidencia a inutilidade dos métodos pacíficos de luta política. Aí ele é menos explícito, mas não menos evidente:
"Uma cidadã que escolheu o caminho institucional democrático, e nele foi bem-sucedida, terminou sumariamente eliminada pela ação violenta dos que são, na prática, contra a democracia."

Fica parecendo que Marielle morreu porque escolheu o caminho institucional. É do balacobaco.

Mais: o articulista faz o jogo dos assassinos da vereadora quando diz que a morte faz parte do "clima geral regressivo".

Ora, o número de homicídios no país foi batendo sucessivos recordes durante o governo "progressista" do PT.

Dia desses, um petista perguntava por que "tanto ódio" secretado contra os petistas e por que tanta torcida para Lula ser preso…

Pois é. Sem entrar, desta feita, no mérito da questão judicial — aliás, é Singer, não eu, quem a considera irrelevante —, noto: posturas como a do doutor evidenciam que parte considerável do PT é que ainda não absorveu a democracia como valor inegociável. Fosse diferente, em vez de tentar inscrever a morte de Marielle numa versão novelesca da luta de classes, Singer daria relevo à evidência de que aqueles que a mataram não querem é a presença do Estado que reprime o crime, já que traficantes, milicianos e a banda podre da polícia se encarregam da devida repressão às pessoas.

Não tem jeito! Mundo e história afora, as esquerdas flertam com o crime, buscando nele evidências primitivas daquela tal luta de classes. No Brasil, isso é ainda mais saliente porque a delinquência política do PT na tentativa de privatizar o Estado e submetê-lo aos interesses do partido se misturou ao momento de afirmação de grupos identitários que veem a própria ordem democrática como repressão — aliás, era o que também fazia Marielle: a sua militância contra a intervenção desprezava as evidências mais cabais de que imperava no Estado a "ordem da desordem" do crime organizado.

Escreve André:
"Segundo a Unicef, o Brasil teve uma taxa de 59 mortes violentas de crianças e adolescentes (10 a 19 anos) para cada 100 mil em 2015 —a sétima maior do mundo."

Pois é…

Fôssemos fazer a conta tomando 100 mil como base, a taxa de policiais militares mortos no Estado em 2017 foi de 294,9 por 100 mil, já que foram assassinados 134 PMs numa corporação, então, de 45.429 homens.

Não há condição mais perigosa no Rio.

Parte considerável da sociedade brasileira alimenta, sim, um sentimento de vingança em relação a Lula e ao PT. É claro que não se trata de um bom conselheiro. E sei quanta porrada levo quando aponto falhas no processo que levou o ex-presidente à condenação.

O pensamento de petistas como André Singer traz à luz as raízes desse ódio. O Rio chegou à anomia, à desordem, ao caos. E a militância de esquerda se levanta não contra a bandidagem, mas contra a própria ordem democrática.

Não por acaso, temos Singer a apontar o "fracasso da democracia" e a inutilidade do "caminho institucional".

 

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.