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Reinaldo Azevedo

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Partido da Polícia arreganha os dentes contra o PT e fecha delação com Palocci depois de vinte meses preso. Objetivo: uma pá de cal em Lula

Reinaldo Azevedo

27/04/2018 07h57

Palocci depõe a Sérgio Moro: a delação nem existia, e ele se oferece em cena aberta para uma conversinha privada

Vem por aí a mais estranha delação de todos os tempos: a de Antonio Palocci, que foi ministro da Fazenda de Lula, seu homem de confiança, coordenador da primeira campanha de Dilma Rousseff — ele era chamado de um dos seus "Três Porquinhos" — e chefe da Casa Civil da dita "presidenta". Teve de deixar o governo Lula em 26 de março de 2006 à esteira do chamado "escândalo da mansão do lobby". Era, então, o grande fiador da conversão do PT ao mercado e idolatrado por 11 entre 10 empresários, especialmente do setor financeiro. Sim, escrevi 11 entre 10. Considerava-se que se render a seu charme era só questão de tempo. Mesmo fora do governo, seguiu sendo um queridinho do mercado porque continuou a ser um interlocutor de Lula.

No dia 7 de junho de 2011, deu-se a segunda queda de Palocci: pouco mais de seis meses depois de assumir o cargo mais importante do governo Dilma, chefe da Casa Civil, teve de renunciar. Desta feita, não resistiu ao noticiário sobre o seu patrimônio e à dinheirama que ganhou como suposto consultor — levou uma bolada ao tempo em que, ora vejam, coordenava a campanha da candidata Dilma. E uma coisa é preciso reconhecer: era um homem competente. A rigor, poder-se-ia dar a ele esta definição: era um talento em busca de um caráter. E, por todos os ângulos que se olhe, essas duas espécies ainda não conseguiram se encontrar em Palocci.

Palocci foi preso no dia 26 de setembro de 2016, na 35ª fase da Lava Jato, batizada de "Omertà", numa referência à lei do silêncio que vigora na máfia. Só foi julgado por Sérgio Moro em 26 de junho de 2017, condenado a 12 anos de cadeia. Sua prisão preventiva foi mantida.

Desde o primeiro dia em que botou o pé na cadeia, a sua delação era uma das mais aguardadas. E também uma das mais temidas pelo PT. E por dois motivos: a) porque ele transitou por todos os cantos escuros do partido e conhece os seus segredos; b) porque o núcleo duro do partido, com a exceção, ora vejam!, de Lula, nunca confiou nele. No governo, ele e José Dirceu eram considerados polos opostos. Os dois ambicionavam, então, ser um dia o substituto do grande líder na cadeira presidencial. Dirceu caiu em 2005, à esteira do escândalo do mensalão, e Palocci, no ano seguinte.

Sim, Palocci já tentou fazer a delação, mas o Ministério Público Federal refugou porque considerou que ele não estava exatamente revelando os seus podres, os do partido e os dos empresários que com eles se relacionaram. Ele estaria ajeitando uma narrativa para tentar livrar a própria cara, ainda que disposto a fazer a caveira de Lula e de Dilma. A coisa empacou.

E parece que vai desempacar agora, quando o PT tenta armar a resistência à prisão de Lula. Ninguém tem motivos para duvidar de que o ex-presidente será o principal alvo da delação. Fora do ambiente de um acordo, Palocci acusou a existência de um suposto pacto de sangue entre Emilio Odebrecht e o chefão petista que se ancorava num fundo de imodestos R$ 300 milhões. Nas planilhas da empreiteira, o ex-ministro é o "Italiano".

Ignorar o contexto em que se fecha a delação corresponde a sabotar o distinto público. O acordo com um corrupto notório e confesso ser celebrado neste momento é uma demonstração de força do chamado "Partido da Polícia". Que pode aproveitar para ampliar, ao menos potencialmente, os seus domínios. Palocci era o queridinho dos bancos e do mercado financeiro, um setor que ainda não apareceu nas delações. Consta que vai aparecer agora. A ser verdade, vem por aí mais turbulência.

De todo modo, se querem saber, acho que haverá uma coisinha aqui e outra ali, só para que não digam que o tema foi ignorado. A minha aposta é que os alvos serão mesmo o PT, Lula e Dilma. É evidente que Palocci cometeu uma penca de crimes. Ele mesmo o admite. Serão usados agora para tentar, mais uma vez, esmagar a figura de Lula.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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