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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Palocci ser beneficiado por uma delação é um escárnio; ele sempre foi chefe. É evidente que está em curso uso político de tal instrumento

Reinaldo Azevedo

28/04/2018 05h03

O que é isso? É um negócio nojento. Gelatinoso, oportunista, parasita e ainda tem alguns pelos…

Bem, comprar briga, sem saber se dá para ganhar ou perder, é a minha especialidade. A frase que vai entre vírgulas no período anterior pode distinguir o prudente do imprudente, mas também corajoso do covarde. Quem só vai na boa e só enfrenta quem é, de cara, mais fraco do que ele é moralmente desprezível, ainda que venha a se dar bem. Sou de outra estirpe. E gosto de conviver, nesse particular, com os que também são. Já escrevi muitas vezes: há duas virtudes intransitivas, que não depende de que lado estejam, que são, em si, admiráveis, ainda que possamos nos bater mortalmente contra seus protagonistas: coragem e lealdade. Um covarde e um desleal são o que pode haver de mais asqueroso na espécie. Sigamos.

Vocês acham razoável que alguém como Antonio Palocci seja um delator? Convenham: ele estava no topo da cadeia alimentar. O problema é a que a delação no Brasil virou um jogo sem regras. Viram delatores ou delatados aqueles que o Partido da Polícia — MPF e PF —querem que sejam delatores ou delatados, segundo o seu projeto de poder, seja ele qual for. No momento, há um casamento heterodoxo entre os que se consideram, no MPF, ungidos por uma missão divina e setores fanaticamente corporativistas da PF, que estão de braços dados com o bolsonarismo. Sim, isso é verdade.

Palocci é personagem a ser delatada, nunca candidato a delator. Afinal, não é alguém que participava de um esquema chefiado por outros. Ele era um dos chefes. Segundo o que se depreende de sua própria atuação, vazada nos depoimentos a Sérgio Moro, que foram ao ar, ele decidia a distribuição de benesses do Estado brasileiro, que havia sido, então, assaltado por um "ente" que usava o dinheiro público tanto para beneficiar a própria máquina como para fazer a felicidade pessoal de alguns eleitos —  o próprio Palocci enriqueceu como poucos, não é? E agora ele é delator?

Procurem saber o que escrevi e afirmei quando se disse que Joesley Batista, irmão e associados haviam resolvido ser   "delatores". Mais: Rodrigo Janot deu a eles o benefício de quem denuncia organização criminosa. Mas esperem: um homem que confessa 245 crimes e que disse ter comprado quase 300 políticos é mera peça de tal organização? Não é ele mesmo um chefe?

Critiquei a delação de Joesly e sua turma antes que ele próprio nos contasse, com as gravações involuntárias, o que havia de sem-vergonhice e safadeza nas suas negociações com Rodrigo Janot. Fiquem atentos: apesar das tramoias que confessou involuntariamente, o senhor Edson Fachin anda com um comportamento estranho. Já deveria ter declarado nulas aquelas delações. Até agora não o fez. As denúncias requentadas contra Aécio Neves faz supor que está em curso uma operação para tentar livrar a cara de Joesley e seu grupo de bravos.

A delação dos grandes moralistas da JBS foi aceita porque havia um objetivo: derrubar Michel Temer. Não deu certo. Na segunda investida, Janot abriu até uma espécie de concorrência pública entre Eduardo Cunha e Lúcio Funaro para ver acusava o presidente. Funaro, um monumento moral, ganhou.

Depois de quase dois anos de cadeia e uma condenação de 12, fecha-se uma delação com Palocci no âmbito da PF, que briga, no Supremo, com o MPF para saber quem tem a primazia de fazer a delação. Resolveram se entender no caso. E, por óbvio, o objetivo é tentar esmagar Lula de vez. Palocci vai falar na condição de quem era mero subordinado do ex-presidente, o que qualquer jornalista, para ficar na categoria que reporta o poder, sabe ser mentira. Na distribuição de benefícios do Estado, ele chegou a ter mais poder do que aquele que era seu chefe formal.

Figura asquerosa
Palocci tem tudo para restar para na história como a figura mais asquerosa destes tempos. Vamos convir: gente subordinada a ele, quando ministro da Fazenda, quebrou ilegalmente o sigilo do caseiro Francenildo Costa, que mantinha conta corrente na Caixa Econômica Federal, vazando o extrato para um blog da revista "Época", do grupo Globo. No dia seguinte, a própria publicação trazia reportagem sobre um valor considerado atípico na conta do caseiro, que trabalhava na mansão do lobby. Lá constava o valor de R$ 38.860. A sugestão era clara: Francenildo estaria acusando o então ministro a serviço de alguém.

Foi, quero crer, um dos momentos mais vergonhosos vividos por um veículo de imprensa. Que fique claro: os direitos constitucionais de Francenildo estavam sendo violados pela turma que acessou o extrato de sua conta e o passou ao ministro e pela própria revista. É preciso torcer a moral e a decência de maneira miserável para alegar que havia na publicação algum interesse público. Não sem antes haver uma investigação que eventualmente comprovasse a compra do depoimento. É que valia tudo para tentar manter Palocci no governo. Ele havia caído nas graças dos potentados, incluindo o grupo Globo, e tudo vale a pena quando a falta de escrúpulos não é pequena.

Bem, o rapaz havia recebido, na verdade, três depósitos, num valor total de R$ 24.990, de seu pai biológico para não entrar com uma ação de reconhecimento de paternidade. A vida de uma pessoa humilde, que pertencia ao grupo social em nome do qual o PT dizia governar, foi exposta de maneira asquerosa, numa parceria sórdida.

Bem, naquele ato estavam Palocci e seu caráter — ou a falta dele. Longe do governo, mas com óbvia influência dentro e fora do poder, nadou de braçada e se tornou um milionário. Nunca precisou do aval de Lula para fazer promessas e para cumpri-las. Na condição de coordenador da campanha de Dilma, que não conseguia se entender nem com as orações subordinadas, ganhou uma bolada. Quando caiu, depois de menos de sete meses na Casa Civil, afirmou que ela não sabia de suas lambanças. Agora, com certeza, dirá o contrário.

É estupefaciente que aquele que esteve no topo do que pode, sim, ser considerado uma organização criminosa, que era um de seus chefes, segundo seu próprio depoimento, vá ganhar benefícios de pessoa que ajudou a elucidar o esquema. E que isso só vai acontecer em razão da politização dos órgãos de investigação. Se Lula e o petismo estivessem, a esta altura, liquidados, Palocci iria apodrecer na cadeia. Como ambos sobreviveram, ainda que aos pedaços, vem essa nova investida.

Palocci está talhado par mais esse papel. Afinal, petista que era, virou o preferido do grande capital em razão de suas habilidades de trânsfuga. Foi o trânsfuga que não viu nada de errado em tentar esmagar um caseiro. E é ainda o trânsfuga que vai servir de instrumento de politização da investigação para ver o Partido da Polícia consegue fazer com Lula o que a prisão e a cadeia não estão conseguindo.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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