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Reinaldo Azevedo

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João Doria nega ser personagem de vídeo em orgia e grava desmentido ao lado da mulher; a campanha, já na lama, chega ao inimaginável

Reinaldo Azevedo

23/10/2018 19h37

 

O candidato do PSDB ao governo de São Paulo, João Doria, pede que seja investigada a autoria de um suposto vídeo íntimo dele e nega que seja ele o homem que aparece em uma cama com pelo menos cinco mulheres. As imagens teriam sido gravadas no dia 11 de outubro. Em um pronunciamento nas redes sociais ao lado da mulher, Bia Doria, que não fez nenhum comentário, o tucano ressaltou que é casado há 26 anos. João Doria afirmou que a divulgação do conteúdo é uma tentativa de prejudicar sua campanha.

Adversário de Doria na disputa pelo governo paulista, Márcio França, do PSB, divulgou uma nota repudiando campanhas com base em "fake news, montagens, falsificações e, acima de tudo, qualquer tipo de ataque pessoal' a quem quer que seja.

Não há, infelizmente, como não tratar do assunto.

O vídeo está ou já passou por todos os celulares de São Paulo — e, podem apostar, de boa parte do Brasil.

Em algumas mensagens, vem acompanhado de uma ironia: eis ali aquele que se diz o defensor da família.

Ao lado da mulher, Bia, Doria gravou um desmentido. Chama o "vídeo" de vergonhoso, diz que a peça foi produzida por "alguém que quer o seu mal", chama de "fake news", afirma ter pedido auxílio a um perito criminal e diz ter tomado as "medidas judiciais cabíveis". Circulam também áudios em que uma suposta garota que teria participado do, digamos, evento entra em detalhes sobre a suposta vida íntima do candidato e sobre o episódio em si. Na sua resposta, Doria, uma vez mais, evoca Jair Bolsonaro e diz que ambos são perseguidos.

É claro que o leitor, a esta altura, quer saber: "Mas, afinal, é ou não é Doria?" Por enquanto, vale a palavra do candidato, que assevera, ao lado da mulher, não ser ele. Dando crédito à sua palavra, quem quer que tenha armado, então, a falseta se esmerou na busca da semelhança.

Mas a questão, vamos ser claros, não é essa. Será mesmo que isso deveria estar a circular por aí? Vocês se deram conta do esgoto em que estamos mergulhando? Ainda que o vídeo verdadeiro fosse, cabe a pergunta: é disso que São Paulo precisa? É disso que o Brasil precisa? A resposta, inequivocamente, é "não".

Já basta termos uma campanha eleitoral em que muito pouco se falou sobre os problemas de São Paulo. Já basta termos uma campanha eleitoral toda feita da demonização do outro. Já basta termos uma campanha eleitoral em que o adversário e seus eleitores não são tratados como pessoas com direito a uma visão de mundo e a um voto, mas como inimigos que devem ser eliminados. Já basta termos uma campanha eleitoral em que os oponentes são reduzidos a uma caricatura. Já basta termos uma campanha eleitoral em que o ódio substitui qualquer apelo à razão e ao bom senso. Já basta termos uma campanha eleitoral feita de memes grotescos, de apelo aos baixos instintos, de estímulo à agressividade e à animosidade.

É nesse ambiente pestilento que vem a público esse vídeo. Ele dá conta da situação miserável em que está mergulhada a política brasileira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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