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Reinaldo Azevedo

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Onze dias depois de antissemita matar 11 em sinagoga na Pensilvânia, ex-fuzileiro mata 12 em bar na Califórnia. É cultura, não natureza

Reinaldo Azevedo

09/11/2018 07h28

Um ex-fuzileiro naval de 28 anos chamado Ian David Long matou ao menos 12 pessoas e deixou várias outras feridas num ataque na noite de quarta, dia 7 — madrugada de quinta no Brasil — em um bar em Thousand Oaks, no sul da Califórnia. O autor do crime também morreu. Onze dias antes, Robert Bowers, de 46 anos, matou 11 pessoas numa sinagoga em Pittsburgh, na Pensilvânia (EUA), deixando outras seis feridas. Durante o ataque, Bowers bradou insultos antissemitas. Long, por sua vez, informa a Polícia, já havia apresentado sinais de transtornos mentais. Vamos ver quanto tempo vai demorar para que outro atirador enfileire mais alguns corpos, por uma razão distinta dos outros dois assassinos.

Em fevereiro, por exemplo, Nikolas Cruz, de 19 anos, um ex-aluno da Stoneman Douglas High School, em Parkland, na Flórida, resolveu pegar um AR-15 e matar 17 estudantes. Ele tinha sido expulso da escola por motivos disciplinares. Nos três casos, o presidente Donald Trump mandou condolências às vítimas, é claro! Ah,sim: no caso da chacina da Flórida, esse iluminista do trabuco e do rifle sugeriu que os professores se armassem. Que eu me lembre, foi o mais baixo que conseguiu descer na escala da racionalidade.

Os motivos variam; na raiz, está a facilidade com que loucos, antissemitas ou ressentidos têm acesso às armas. Afinal, notem, não se trata de assaltantes que compram uma arma no mercado negro. Cada um deles pode ter conseguido a sua na esquina de casa. "Ah, não fosse com pistola ou rifle, poderia ter matado com uma faca…" Parece-me que seria um pouco mais difícil fazer vítimas em série, não é mesmo?

Caso a venda de armas fosse restrita, alguém com esse perfil não poderia consegui-la no mercado negro? É verdade. Mas isso não responde a uma outra questão: junto com a legalização e a generalização do porte e da posse de armas, vem também a cultura da arma, e esta, sim, estou convencido, é verdadeiramente nefasta. Casada com a facilidade para obter um instrumento de alta letalidade, o doido, o intolerante e o ressentido se transformam em exterminadores.

Tirem as Torres Gêmeas da conta, um evento absolutamente excepcional, e se perguntem quantos americanos foram mortos pelo terrorismo em solo americano e quantos pereceram em razão da ação de atiradores. Ações preventivas contra o terror são uma política de Estado — e é certo que assim seja. Mas as armas são vendidas quase como chicletes.

Certamente não são os minerais presentes no solo e na água ou as particularidades do pólen que fazem dos atiradores quase uma tradição nos EUA. Não são determinações da natureza.

A cultura é a segunda natureza dos humanos.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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