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Reinaldo Azevedo

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Idiotas ainda não entenderam o que é “vitória de Pirro”, mais desastrosa do que a derrota. Os generais, que estudam guerra, sabem o que é

Reinaldo Azevedo

02/02/2019 21h06

Costumo afirmar que prefiro lidar com sabotadores a lidar com idiotas.

Por quê? Sabotadores costumam ser inteligentes. Se descobertos e advertidos de que foram flagrados, cabe-lhes a escolha: pôr fim à sabotagem ou continuar. Mas peçam a um burro para deixar de ser burro. Ele não consegue. É de sua natureza. A burrice é uma imanência, entendem? A burrice não é uma escolha. E, como é sabido, quanto mais estúpido é o sujeito, mais propositivo se mostra. Mais cheio de ideias se revela.

Deve haver alguma razão bastante forte para que, neste momento, os militares do governo — o generalato da reserva — e Paulo Guedes não estejam nem um pouco felizes com o que aconteceu no Senado. E essa mesma razão faz com que alguns petistas, os homólogos do outro lado dos governistas com juízo, estejam comemorando. Por que será?

Alcolumbre teve apenas metade dos votos do Senado — vá lá, um pouco mais. Nos 42, já afirmei, estão cinco da Rede, por exemplo, um partido de oposição, e 8 do PSDB. Só sabemos disso porque a decisão do Supremo foi ignorada. Alguns dos que anunciaram seu voto no vencedor precário e golpista até ontem estavam menos dando satisfação a Onyx — e os havia — do que a patrulheiros das redes sociais.

As mesmas que vão atormentá-los quando as matérias de votação chegarem à Casa.

"Ah, você estava apoiando Renan…" É mesmo? Ah, a glória de ser idiota!

Não tenho simpatia por esse governo, mas me alinho com algumas de suas teses — ou, ao menos, teses de Paulo Guedes. A reforma da Previdência é fundamental para o país. O que é mais prudente? Haver um senador do baixo clero alçado ao estrelato, que serve de títere de um ministro de Estado e depende da boa-vontade da Rede e do PSDB para se eleger, ou um Renan Calheiros, hábil articulador, que conquistaria mais facilmente seus votos com o sigilo garantido, especialmente depois que deu início à interlocução com o governo?

No que o meu pensamento repudia o governo Bolsonaro, confesso, eu estava torcendo pela derrota de Renan porque era o pior para o Planalto. Mas não exerço essa profissão com o fígado. Nem sou líder de torcida. Para as reformas que Guedes e parte dos militares querem fazer, Renan era a melhor opção. E, na reta final, até o presidente Bolsonaro se convenceu disso. ELE VAI NEGAR, MAS O PRIMEIRO VOTO DE FLÁVIO FOI DE RENAN. Mudou depois. O filho do presidente que mais aprecia Onyx gostaria que ele fosse demitido, se é que me entendem…

Sim, o PT combateu o golpe comandado por Onyx porque há tempos tem proximidade com Renan. Atuaram juntos na disputa eleitoral em Alagoas, e o senador mantém uma excelente relação com Lula. Mas os petistas são pragmáticos o bastante para entender que Renan se mobilizasse em favor das reformas. E com um trânsito obviamente maior do que o do tal Alcolumbre e seus 42 votos: parte de militantes anti-Renan e parte de deslumbrados que querem "mudar isso tudo o que está aí".

Para quem ainda não entendeu: o governo terá menos trânsito no Senado do que teria com Renan no comando. Quem realmente torcia para que o governo Bolsonaro se desse mal, vamos ser claros, torcia pela derrota do senador peemedebista. Quer dizer que vai dar errado? Não necessariamente. Mas quer dizer que tudo vai ficar mais difícil. O mundo não é plano, como supõem os tontos. E a Terra não é um disco.

Não por acaso, lá com seus botões, generais e Guedes torciam por Renan. E isso também explica que o PT esteja comemorando em silêncio, embora, com efeito, fosse votar no peemedebista e tenha defendido o Regimento Interno: voto secreto — mas secreto mesmo.

E, é claro, há aqueles que estão sinceramente magoados com a forma como se deu o jogo truculento. A reforma no Senado ficou mais difícil e mais cara. Se o generalato que pensa e se Guedes estão preocupados, se o PT comemora e se Onyx experimenta uma vitória puramente pessoal, já que tomou uma tunda na Câmara e quis compensar, bem, não dá para dizer que o governo ganhou.

E, pior de tudo: seis artigos do Regimento Interno do Senado foram jogados no lixo na sessão de ontem; na de hoje, uma decisão do Supremo teve o mesmo destino. E se ouviam os gritos: "O plenário é soberano".

A partir de agora, naquela Casa, tudo é permitido. E, é claro, para quem precisa de ordem, isso é péssimo.

Já ouviram falar em "Vitória de Pirro"? Pesquisam a respeito. O custo da suposta vitória é muito maior do que o da derrota. Generais entendem disso. Era rei. Mas também era um general.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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