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Prisão de Andrade e demais empresários é truculência explícita; estar no Fallet ou em Manguinhos é ainda mais perigoso

Reinaldo Azevedo

20/02/2019 02h05

Robson Andrade, presidente da CNI: prisão foi mero espetáculo de truculência

Bem antes da eleição, batia um papo com um querido amigo, advogado dos bons, e especulávamos sobre cenários com a vitória de Jair Bolsonaro, que dávamos ambos como certa, embora, então, não parecesse ainda uma evidência. Eu e ele considerávamos o óbvio: a operação Lava Jato era um dos principais esteios do bolsonarismo, e seus métodos se transformariam numa rotina. E aí escrevo aqui, entre aspas, o que ele disse — e vocês podem acreditar ou não, mas foi assim. Afirmou ele: "Antevejo o desfile de cadáveres de pobres, sob o pretexto de combater o crime, e de ricos com algemas. Isso não quer dizer que os pobres mortos e os ricos com algemas não tenham votado no homem…"

Não sei se os 15 mortos do Morro do Fallet, no Rio, votaram em Bolsonaro. Robson Andrade, presidente da CNI, que foi preso nesta terça de manhã e solto à noite, votou com certeza. O tal projeto anticrime e anticorrupção de Sérgio Moro, agora fatiado em três, busca dar conta dos dois extremos sociais. Mas isso fica para outro texto. Quero me ater ao desfile dos ricos encarcerados — as algemas não foram empregadas. Mas só porque, por óbvio, não houve resistência.

Quando Paulo Guedes, ministro da Economia, afirmou que seria enfiada uma faca no Sistema S, certamente os empresários não pensaram em nada tão drástico. Vocês encontram a motivação da tal Operação Fachada em toda parte. Um esquema criminoso teria sido montado em 2002 para desviar recursos do Sistema S por intermédio de ONGs e empresas fantasmas. Como de hábito, diga-se o óbvio: que se investigue tudo. Se existem indícios de irregularidade, é preciso ir a fundo na questão, de acordo com a lei. Que o Sistema S está na mira, bem, isso é uma evidência.

A Operação Fantoche, que prendeu Andrade e mais uma penca de gente — entre eles, Ricardo Essinger (presidente da Federação das Indústrias de Pernambuco); Francisco de Assis Benevides Gadelha (presidente da Federação das Indústrias da Paraíba); José Carlos Lyra de Andrade (presidente da Federação das Indústrias de Alagoas) e Hebron Costa Cruz de Oliveira (presidente e advogado do Instituto Origami) —, nada tem com a Lava Jato, mas é, digamos, da sua mesma ordem espiritual. Todos foram devidamente levados à autoridade policial, com mandados concomitantes de busca e apreensão, sem que soubessem exatamente por quê.

Oh, leitor amigo! Sim, você pode estar entre aqueles que acham que a Polícia tem sempre razão quando prende um medalhão ou mata alguém no Morro do Fallet. No caso dessa turma de empresários, chama a atenção o fato de que a prisão temporária não chegou a durar um dia. Ouvidas as pessoas, tiveram a soltura determinada pela Justiça a pedido da própria Polícia Federal. Justificativa: os depoimentos já haviam sido tomados. Entenderam o ponto? Como, por 6 a 5, o Supremo proibiu a condução coercitiva para simples interrogatório, então se opta pela prisão temporária. Sim, o Artigo 260 do Código Penal prevê a condução coercitiva, mas só "se o acusado não atender à intimação". Isso faz supor a existência de um processo ao menos. E, por óbvio, de uma intimação.

No caso dos dirigentes das citadas entidades empresariais, é visível que, na impossibilidade de recorrer à condução coercitiva como instrumento de humilhação de quem, do ponto de vista formal, não era nem mesmo um investigado, recorreu-se, então, a algo pior: a prisão. E nem mesmo se procurou disfarçar a motivação. Será que Robson Andrade e os outros, com mandados de busca e apreensão em curso, dariam um jeito de botar fogo em seus respectivos escritórios para esconder eventuais provas?

Acho que não. Há quem goste do rumo que as coisas estão tomando, não é? Penso que sempre se viverá em risco se o Estado puder encarcerar quem lhe der na telha, especialmente quando o faz driblando uma decisão do Supremo. Foi o caso. Tanto não havia razão para prender que todos foram soltos em seguida. Foi apenas para mostrar quem manda.

E que fique claro: eu não acho que a PF tenha combinado a ação com Guedes. O que explica a truculência é, vamos dizer, o espírito do tempo. Ele se alimenta de reputações esmagadas, de direitos aviltados, de "poderosos" humilhados — que, ora vejam, ainda podem se dar por satisfeitos por estar no Morro do Fallet ou em Manguinhos: esses "snipers" que miram os poderosos são de outra natureza.

Haverá muito outros.

A prisão dos empresários, da forma como se deu — e notem que não estou negando que tenha havido falcatruas porque não disponho de elementos para tanto —, contribui para manchar a reputação do Sistema S. A facada ainda virá.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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