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Reinaldo Azevedo

Bolsonaro e a homofobia no cavalo de Troia do decoro e do bom senso

Reinaldo Azevedo

06/03/2019 20h37

Bolsonaro participa de roda de oração nesta quarta, 6 de março, na entrada do Palácio da Alvorada, um dia depois de espalhar vídeo pornô (Foto: Daniel Marenco/Agência O Globo)

A Presidência da República se cobre de ridículo.

Ainda que a prática registrada no vídeo divulgado por Jair Bolsonaro fosse uma rotina das festas de rua, é evidente que não caberia ao presidente passá-la adiante. Ocorre, meus caros, que rotina não é. É fato que alguns foliões emulam com certos políticos na baixaria, na ausência de limites e na falta de decoro. Mas se trata de exceção, não de regra.

E, neste ponto, é preciso deixar de lado a hipocrisia e os pensamentos oblíquos para ir ao ponto, ao "é da coisa". Bolsonaro só fez o que fez porque se tratava de uma cena protagonizada por homossexuais. Ou lhe faltariam exemplos de transgressões praticadas por héteros? O mecanismo que o levou a publicar o vídeo é muito mais perverso do que parece, e seu complemento não se deu com a indagação de falso sonso — "o que é golden shower?" —, mas com a roda de oração de que participou nesta quarta. A mensagem: há um mundo decaído, impuro, decadente, que tem de ser esconjurado. E há o dele, o das pessoas supostamente sãs. Duvido que até mesmo os bolsonaristas mais fanáticos anseiem por esse tipo de sanidade.

Ora, não é preciso ser muito sagaz para concluir que Bolsonaro não estava interessado em censurar o comportamento daqueles dois gays em particular. O sentido de sua postagem era evidente: "Olhem o que fazem os gays". E, portanto, está justificada a homofobia. Usa-se o grotesco não para censurar o excesso, mas para atacar a diversidade.

O preconceito é uma espécie de cavalo de troia da moral. Ele se insinua mesmo no pensamento são e inocula o vírus da intolerância. Ora, não houvesse alguns negros ladrões, não haveria a fama dos negros ladrões, certo? Não houvesse alguns judeus sovinas, não haveria a fama dos judeus sovinas. Não houvesse alguns ciganos trapaceiros, não haveria a fama dos ciganos trapaceiros. Não houvesse algumas feministas intolerantes, não haveria a fama das feministas intolerantes. E, pois, não houvesse gays pervertidos, não haveria a fama dos gays pervertidos.

Notem: criam-se, assim, as categorias dos "humanos especialmente marcados", e não é raro que negros, judeus, ciganos, mulheres e gays — e muitas outras, vá lá, categorias poderiam ser citadas — acabem internalizando e vocalizando a mais perversa de todas as características do preconceito: o sujeito passa a objeto de uma patrulha invisível, mas presente, que lhe impõe uma moral determinada porque não estaria falando ou agindo só por si, mas por um grupo. Perde-se a única razão por que existimos como seres irrepetíveis: a individualidade.

Olhem cá, meus caros: parafraseando raciocínio que já é um clássico, destaco que me preocupa menos a intolerância dos estúpidos do que certo relativismo dos decentes diante de uma manifestação escancarada de preconceito. O que Bolsonaro pretende, com a sua truculência insolente, é nos empurrar para a defesa ou para a censura da performance dos dois rapazes, como se essa fosse a questão. E, como resta óbvio, não é.

Ele é um político. Não há nada de ingênuo em seus atos. Acreditem: o seu público de raiz se sente alimentado e confortado com seu ato destrambelhado. Convém lembrar que parlamentares bolsonaristas estão pedindo o impeachment de quatro ministros do Supremo que já votaram em favor da tese de que se estenda à homofobia e à transfobia as punições previstas na lei Lei 7.716 para crimes decorrentes de "preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional".

Ora, ora… Bolsonaro deveria estar empenhado, neste momento, em convencer o seu eleitorado da necessidade da reforma da Previdência, causa que ele ainda não abraçou. Fazer o quê? Já escrevi neste blog e repito:
"O problema é que muitos votaram no 'Mito' para que ele caçasse gays, não para que cassasse aposentadorias antes dos 50. A primeira coisa lhes parecia justa porque, afinal, não são gays. Já a segunda, não. Eles queriam se aposentar antes dos 50 num mundo sem gays".

E o grande líder precisa fornecer a sua ração diária de impostura a seus fanáticos.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.