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Reinaldo Azevedo

Os músculos de MC Bretas, o “Proibidão Judicial” da 7ª Vara Federal do Rio

Reinaldo Azevedo

24/03/2019 08h02

Marcelo Bretas exibe seus dotes jurídicos nas redes sociais. É a "nova Justiça" da "nova Política"

O Brasil tem, enfim, um juiz realmente com musculatura. Trata-se de Marcelo Bretas, o buliçoso titular da 7ª Vara Federal do Rio. O homem é um frequentador das redes sociais e parece ser chegado, como posso dizer?, a um certo "culto de si mesmo". É o que se pode chamar de um narcisista compulsivo. Vejam a foto. Já volto ao tema.

Bretas é um homem de decisões singulares. Deu uma sorte enorme na vida: ninguém menos do que Sérgio Cabral caiu no seu colo. E, convenham, aí não fica muito difícil ser herói, embora ele tenha conseguido ser injusto até com Cabral! Como esquecer que determinou que este fosse transferido de presídio e mantido um tempo em isolamento só porque o ex-governador, em um depoimento, lembrou que sua família atuava no ramo de bijuterias? O juiz disse ter-se sentido ameaçado… Obviamente, não havia ameaça nenhuma, e a decisão foi revista. Mas isso dá uma medida de alguém que parece se considerar acima do bem e do mal. É visto como um candidato certo de Bolsonaro para um tribunal superior: STJ ou STF. Nesse caso, resta-nos pensar: "Bem, Deus está acima de todos… Será que vai velar também pela Justiça?"

Bretas ao lado de Witzel, seu amigão: juiz divulgou depoimento que atingiu em cheio candidatura de Eduardo Paes três dias antes da eleição

CAMPANHA, BOLSONARO E WITZEL
"Durante a campanha eleitoral, costumava "curtir" mensagens do então candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro. Depois do início do mandato, já defendeu o governo, como se isso coubesse a um juiz. Em outubro do ano passado, a três dias do primeiro turno da eleição, tomou e tornou público o depoimento de Alexandre Pinto, ex-secretário de Eduardo Paes na Prefeitura do Rio. Em três jornadas anteriores, Pinto nunca havia acusado Paes de receber propina. E o fez, então, pela primeira vez, sem exibir indícios, provas, nada. Tudo na boca da urna. O maior beneficiário da acusação, que provocou um enorme estardalhaço nas redes sociais, foi Wilson Witzel (PSC), ex-juiz federal e amigo pessoal de Bretas. Witzel foi eleito. Sim, o titular da 7ª Vara Federal do Rio já posou ao lado de seu amigo de fé, irmão, camarada…

Ele e a mulher, também juíza, moram numa mansão no Flamengo, com vista para o Pão de Açúcar, que já foi matéria de uma revista de arquitetura e decoração. São donos ainda de uma casa num condomínio em Itaipava, avaliada em R$ 5,8 milhões. Ainda assim, o casal foi flagrado a receber dois auxílios-moradia, prática que era proibida pelo Conselho Nacional de Justiça. E como ele conseguiu? Havia entrado na Justiça para ter assegurado o que considerava um "direito".

Á medida que seu narcisismo avança, nota-se que ele pode carregar na tentativa de emprestar certa sensualidade à Justiça feita no braço

MAROMBA COM SEIS SEGURANÇAS
O juiz, que assinou o tresloucado despacho que autorizou a prisão do ex-presidente Michel Temer, executada com todos os requintes do espetáculo, é um marombeiro fanático. Malha mesmo! Segundo Mônica Bergamo, chega a ir duas vezes por dia à academia, sempre cercado por nada menos de seis seguranças. E posta compulsivamente fotos de si mesmo nas redes sociais. Também aparece em traje social, mas, nota-se, as suas preferidas são aquelas em que exibe a musculatura. Cumpre indagar? Para quem? Parece que para si mesmo.

Não! Bretas não tem fotos exibindo símbolos da Justiça ou a Constituição. Dada o despacho em que autorizou a prisão de Temer, não parece ser um fanático do Código de Processo Penal (CPP). A leitura que fez do Artigo 312 tem tudo para ser um exemplo histórico do que não deve fazer um juiz.

As imagens que posta de si mesmo deixam claro que ele não está interessado em ser um Cesare Beccaria dos trópicos. Está mais para a dupla Maçaranduba e Uilson Montanha, célebres personagens vividas pelos humoristas Cláudio Manuel e Bussunda, do Casseta & Planeta. Eram aqueles que resolviam tudo na "porrrrrrada". Ninguém precisa de Constituição para isso, certo? Só de braços.

Ah, sim: seu nome das redes sociais é "MCBretas". Depois de ler o seu despacho sobre a prisão de Temer, com todo o rigor técnico que lá aparece, fico cá a pensar num Bonde do Proibidão do MC Bretas.

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CORREÇÃO: Num dado momento do texto, referi-me ao Artigo 317 do Código de Processo Penal. Erro de digitação. Como o texto deixa claro, eu vinha falando do Artigo 312.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.