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Reinaldo Azevedo

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1964 hoje-1: Bolsonaro humilha Forças Armadas ao impor comemoração do golpe

Reinaldo Azevedo

2025-03-20T19:22:30

25/03/2019 22h30

Congresso cercado pelo golpe: quantos perigosos comunistas havia ali dentro? As coisas não caminham bem, eis a verdade

Os militares estavam dispostos a fazer uma, digamos assim, comemoração discreta marcando o aniversário do golpe militar de 1964. Estamos falando de algo ocorrido há 55 anos. Por óbvio, deveríamos, como país, estar tratando de outros assuntos. Mas não. O presidente Jair Bolsonaro, como todo reacionário, não tem compromisso com o futuro. Sua determinação é reescrever o passado. O Brasil tinha conseguido uma transição pacífica da ditadura para a democracia. Com alguns problemas, é claro. Trato deles em outro post. É uma estupidez, dadas as dificuldades que temos, tentar trazer aquele passado a valor presente. Pergunta óbvia: serve para unir o país ou para dividi-lo ainda mais? A resposta é também óbvia.

Pois é… Bolsonaro determinou que sejam feitas comemorações em unidades militares. E o porta-voz da Presidência, general Rego Barros, afirmou o seguinte:
"Nosso presidente já determinou ao Ministério da Defesa que faça as comemorações devidas com relação ao 31 de março de 1964 incluindo a ordem do dia, patrocinada pelo Ministério da Defesa, que já foi aprovada pelo nosso presidente".

E Rego Barros avançou:
"O presidente não considera o 31 de março de 1964 golpe militar. Ele considera que a sociedade reunida e percebendo o perigo que o país estava vivenciando naquele momento, juntou-se civis e militares e nós conseguimos recuperar e recolocar o nosso país num rumo que salvo melhor juízo, se tudo isso não tivesse ocorrido, hoje nós estaríamos tendo algum tipo de governo aqui que não seria bom para ninguém."

Dia desses, numa "live" ao lado de Bolsonaro, o próprio Rego Barros citou um livro de Samuel Huntington que trata do "controle civil objetivo" dos militares, chamado "O Soldado e o Estado". Escrevi aqui um post a respeito. O general citava o livro de forma elogiosa. Huntington era um pensador conservador. E ele prega justamente que os militares se afastem da política e que, nesse particular, sejam absolutamente neutros. Recorre até à expressão "militarização dos militares". O contrário é a situação indesejável: "controle civil subjetivo", que é quando as Forças Armadas, em síntese, disputam o espaço que cabe aos civis.

Ainda que Rego Barros seja porta-voz, ele é um general da ativa. As suas palavras ganham o sabor incômodo da ambiguidade. Fala pelo generalato da ativa ou por Bolsonaro? Bem, Huntington diria, em sinal de desaprovação, que faz as duas coisas.

João Goulart levou a bagunça para dentro do palácio? Levou. As esquerdas que promoviam o seu trabalho de agitação e propaganda queriam democracia? Não! As ilusões armadas que marcaram os anos se chumbo que as reprimiram tampouco tinham qualquer compromisso com o regime democrático. Isso tudo está sobejamente demonstrado.

Mas não cumpre ao Estado democrático abrigar a comemoração do que foi obviamente um golpe, já que a Constituição foi rasgada. Mais: houve o golpe dentro do golpe em 13 de dezembro de 1968, com o AI-5, e os próceres da própria ditadura não hesitaram em chamar aquilo de… "ditadura"!

Caminhamos no sentido oposto àquele propugnado por Huntington, que é leitura do general. Caminhamos no sentido oposto ao das democracias que já passaram por fases ditatoriais. Ou se comemora, como data de Estado, na Espanha, a vitória de Franco na guerra civil?

A Anistia de 1979 foi, a seu modo, o nosso pacto, que todas as sociedades que saem de ditaduras realizam. Nem o Chile, muito mais marcado pelos efeitos legais do regime militar do que o Brasil, comemora o golpe de 1973 — sim, lá foi muito mais violento.

Ainda que as Forças Armadas tivessem sido obrigadas a rasgar a Constituição — e não consta que fosse essa nem a única nem a melhor solução —, a comemoração é descabida porque celebra não só a deposição do governo eleito, mas também as duas décadas em que os militares foram governo. O recado é forçoso, queira-se ou não: "Se preciso, faremos de novo".

Cabe a pergunta: "Farão?"

Não acho que possam. A maioria lúcida do Alto-Comando queria a maior discrição possível para a data. Bolsonaro leva os militares da ativa a fazer a coisa errada. Justo ele, um mau soldado, punido por indisciplina e precocemente enviado para a reserva por, digamos, insuficiência nos dotes que fazem um bom militar.

Bolsonaro, o capitão reformado, rebaixa os oficiais-generais das Forças Armadas brasileiras.

Lastimável!

Trato de indenização, Comissão da Verdade e anistia em outro post.
Continua aqui

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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