Topo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Com Weintraub na Educação, Bolsonaro só dobra a dose do remédio errado

Reinaldo Azevedo

08/04/2019 17h21

A crise no Ministério da Educação vai continuar. O presidente Jair Bolsonaro decidiu dobrar a dose do remédio errado ao nomear Abraham Weintraub para o lugar de Vélez Rodríguez. Pode não ser um daqueles alunos online da Escolinha do Professor Raimundo de Olavo de Carvalho, mas pertence à mesma estirpe. A sua contribuição mais notável ao debate, até agora, é afirmar que a melhor maneira de combater um esquerdista é lhe dizendo alguns palavrões. À moda do "professor Olavo".

Em recente encontro de militantes de extrema-direita, capitaneado por Eduardo Bolsonaro, Abraham fez o seu "stand up". Num dado momento, ao falar sobre a reforma da Previdência, afirmou o seguinte:
"A reforma está sendo propositalmente escondida para evitar tiroteio antes, mas ela está bem avançada. E está trazendo o que tem de mais moderno em termos de Chile, Canadá, Europa. Acho que vocês vão ficar surpresos positivamente quando souberem. E, do ponto de vista político, o que está tentando se fazer é, de novo, desintermediar. A gente não chegou nessa situação porque os comunistas são pobres. Os comunistas estão no topo do país. Eles são o topo das organizações financeiras. Eles são os donos dos jornais. Eles são os donos das grandes empresas. Eles são os donos dos monopólios. Os monopolistas apoiaram Lula. Os monopolistas estavam dando dinheiro para o [Fernando] Haddad. A gente não conseguiu ter o apoio de qualquer grande instituição durante a campanha. E qual foi a sacada? Desintermediar. Houve uma comunicação do Jair Bolsonaro diretamente com o povo através das mídias sociais. Eu acho que agora, capitaneado pelo Onyx Lorenzoni, está se tentando fazer a mesma coisa no Congresso. Os antigos parlamentares, que eram donos de grupos, grupelhos,  estão sendo 'by passados', estão sendo atravessados, para chegar diretamente à base de apoio, para conversar republicanamente com a base congressista. A estimativa é que a gente vai ter 350 na base, que é mais do que suficiente para passar o que for necessário".

E a plateia aplaudiu com entusiasmo esse conjunto impressionante de asneiras.

No seu "stund up", Weintraub saca frases, devidamente tiradas do contexto, para evidenciar que mitos esquerdistas ou eram racistas ou faziam a apologia da violência. Ainda que tivessem alguma validade como exposição do que foi a história, a iniciativa nasce na má consciência, como quem dissesse: "Não somos os únicos". É um truque intelectual vulgar.

Vamos fazer associações históricas? O discurso de Weintraub, ainda que isto devesse ser improvável, repete a estrutura do pensamento de um certo Goebbels, ministro da propaganda do nazismo, em uma fala inflamada, em uma megacentração em Berlim, no dia 10 de fevereiro de 1933. Também ele estava com ódio de comunistas, dos oligopólios, da imprensa… E tinha a certeza da vitória consagradora — o que, claro!, foi verdade durante algum tempo, com as consequências conhecidas. Afirmou por exemplo:
"Há alguns anos, não falávamos da boca pra fora quando dizíamos que vocês, judeus, são nossos professores e que só queremos ser seus alunos e aprender com vocês. Além disso, é preciso esclarecer que aquilo que esses senhores conseguiram no terreno da política de propaganda durante os últimos 14 anos foi realmente uma porcaria. Apesar de eles controlarem os meios de comunicação, tudo o que conseguiram fazer foi encobrir os escândalos parlamentares, que eram inúteis para formar uma nova base política."

Weintraub, como se vê, acha que imprensa livre é coisa de "comunista" — Goebbels juntava "judeu e comunista". Coisa de mentes autoritárias. Para Lênin, era impossível governar com imprensa livre. Em conversa com Claretta Petacci, sua amante, Mussolini deixou claro quais era os três males da França: "sífilis, absinto e imprensa livre".

Aguardem. O Ministério da Educação caminha para a entropia. O que muda de Vélez Rodríguez para Weintraub? Este, visivelmente, é dotado de mais autoconfiança, o que, dado o conjunto da obra, pode piorar tudo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Reinaldo Azevedo