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Venezuela: A crise das democracias representativas é uma crise de liderança

Reinaldo Azevedo

02/05/2019 22h28

A crise da chamada democracia representativa é, antes de mais nada, uma crise de liderança. Há nisso tudo um aspecto também civilizacional. Vamos ver aonde vai dar. Mundo afora, multiplicam-se líderes cujo despreparo intelectual e político é evidente. Estamos falando de pessoas que decidem segundo a temperatura das redes sociais, das maiorias influentes da Internet, dos clamores tão múltiplos como passageiros. E que são, também, necessariamente autoritárias porque têm sempre de prestar contas ao nicho de radicais que conquistaram. E esses radicais não querem concessão ao "outro lado" — ou "aos outros lados". Sua razão de ser é se impor pela fala flamejante, pelos julgamentos definitivos, pelo tudo ou nada. Qualquer possibilidade de matizar o problema é logo rechaçada como se seu defensor fosse um desertor.

É por isso que tantas coisas ruins vão acontecendo mundo afora — no Reino Unido ou aqui —, e só depois há uma espécie de ressaca, e então as pessoas se perguntam: "Caramba! Como foi que fizemos isso?" É um momento delicado. A democracia, como a voz da maioria, sem os filtros institucionais que conduzam à moderação, pode se traduzir na guerra permanente de todos contra todos. E é nesse ponto que aparece, então, o líder populista para oferecer o murro na mesa, em nome da ordem.

Vejam o que se passa na Venezuela. Durante anos, o mundo assistiu inerme à corrosão da democracia no país — nesse caso, sob a liderança de um populista de esquerda. Como Chávez, espertamente, recorreu à democracia para solapar o regime — e populistas de direita buscam fazer a mesma coisa hoje em dia, inclusive no Brasil —, poucos se atreviam a levantar a voz. Afinal, dizia-se, era a vontade da maioria. Desde sempre, e meu blog já tem história, perguntei se a democracia se resume a um método de escolher o governante. E a resposta sempre foi "não". Ela também é um conjunto de valores — e o principal deles é resguardar a voz da minoria, o direito de divergir, uma vez que também é possível concordar nas tiranias.

O "Socialismo do Século XXI" já se esfarelou. A rigor, nunca existiu. Resumiu-se à distribuição de benesses — poucas para um povo miserável, mas convincentes para quem não tinha nada — oriundas da elevação do preço do petróleo. Quando a commodity despencou, o sistema ruiu. O valor do barril recuperou-se um pouco, chegando a um nível médio, mas o tecido social, político, institucional já estava esgarçado. Sem contar que delírios autoritários precisam de novos delírios autoritários para se alimentar e se justificar. Uma coisa, no entanto, é certa: cabe ao povo venezuelano derrubar o seu ditador. As interferências externas, hoje, e não é preciso ser muito sagaz para percebê-lo, mais reforçam a posição de Nicolás Maduro do que o enfraquecem.

No Brasil, generais experimentados como Augusto Heleno, chefe do Gabinete da Segurança Institucional, e Hamilton Mourão, vice-presidente, perceberam a fragilidade de Juan Guaidó. Já há algo de patético em alguém se autodeclarar presidente afirmando, o que é falso, que se ancora na Constituição. O fato de Maduro ser um ditador asqueroso não torna o gesto virtuoso. Que se dissesse, aí sim, um dos líderes da oposição em rebelião. Mais: seja no caso do tal "Dia D" da ajuda humanitária, seja na tentativa de quartelada desta quarta, parece evidente que ele prometeu o que não podia entregar. Garantiu a seu grupo de apoiadores estrangeiros que tinha o apoio de parte substancial das Forças Armadas, e, como se pôde perceber, não era verdade. Em entrevista concedida à Folha, diz agora que a luta, que seria vencida anteontem, será longa. É evidente que me solidarizo com o povo venezuelano e vejo em Guaidó traços de coragem, mas, confesso, mais me incomoda a sua obsessão um tanto ridícula de seguir o gestual de Obama, o andar de Obama, as poses de Obama, o jeito de cumprimentar de Obama… Parece-me uma pessoa em busca de uma personalidade política, que as circunstâncias alçaram a um protagonismo para o qual não tem a devida envergadura.

O Brasil meteu os pés pelas mãos nessa crise. E não porque exista algo de respeitável em Nicolás Maduro. Não há nada. Mas porque há uma ordem internacional, com regras, que deve ser respeitada. E uma delas é o princípio da não-ingerência, a não ser em casos extremos em que um governante pratica genocídio ou limpeza étnica. Não reconhecer a legitimidade de Maduro não implica dar passos concretos para derrubá-lo.

Jair Bolsonaro, mais do que outros governantes, está se envolvendo pessoalmente na deposição do ditador, seja por intermédio de Ernesto Araújo, que negocia com os EUA a pressão, seja conversando diretamente com Guaidó, que fez promessas que não pôde cumprir. Eu tento me comover, sim, com o apreço que o brasileiro diz ter pela democracia e com a solidariedade que demonstra ao povo venezuelano. Mas depois me lembro que esse é o presidente que tem um ministro da Educação que decidiu punir três universidades porque considera que elas abrigam esquerdistas em excesso. Esse é o presidente que demite de um cargo de confiança, por intermédio de um ministro do Meio Ambiente que serve de seu braço armado, um fiscal do Ibama que lhe aplicara uma multa no passado. Esse é o presidente que ordenou que as Forças Armadas comemorassem o golpe militar de 1964. Esse é o presidente que nunca pediu desculpas por ter afirmado que o erro da ditadura, no Brasil, foi torturar e não matar. Esse é o presidente que diz que o Brasil não pode ter um turismo gay vigoroso porque este tem de ser o país da família e que são bem-vindos os turistas que queiram transar com mulheres.

EU NÃO ENTENDO AS RAZÕES DE BOLSONARO PARA GOSTAR MAIS DE DEMOCRACIA NA VENEZUELA DO QUE NO BRASIL.

Maduro tem de cair para que haja alguma chance de a sanidade voltar ao poder na Venezuela. Mas é uma tarefa que cabe à população daquele país. O Brasil já errou brutalmente quando deixou a sua condição de líder regional — e portanto de mediador preferencial de crises — para ser mero capacho das escolhas de Donald Trump, aquele que conseguiu namoricar Kim Jong-un, chamá-lo de "grande líder" e, em seguida, perdê-lo para os encantos de Vladimir Putin.

A crise das democracias representativas é, antes de tudo, uma crise de liderança.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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