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Reinaldo Azevedo

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Flávio, o Zero 1, quer fim de investigação; nega defesa de milícia: mentira

Reinaldo Azevedo

2013-05-20T19:06:56

13/05/2019 06h56

Flávio passou a ser investigado após o COAF identificar movimentação financeira considerada atípica em sua conta corrente e na de seu ex-assessor (Foto: Dida Sampaio/Estadão)

Realmente notável a entrevista que o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho mais velho do presidente da República, resolveu conceder ao Estadão na edição desta segunda. Segundo o senador, o Ministério Público do Rio tenta dar o que chama de "verniz de legalidade" à investigação do caso envolvendo Fabrício Queiroz. Para lembrar: Queiroz era um faz-tudo de Flávio, amigo pessoal de seu pai, e, ora vejam, recebia em sua conta pessoal parte do salário dos funcionários que trabalhavam no gabinete do então deputado estadual.

Flávio quer ser excluído da investigação. Impressionante! Um ex-presidente da República, Lula, está preso porque, segundo Sérgio Moro (hoje ministro de Bolsonaro), o TRF-4 e o STJ, não havia como ele não saber das lambanças na Petrobras já que teria o controle político das nomeações feitas para a diretoria da empresa. "Ah, mas não está preso por causa do tríplex?" Não! Moro deixou claro que o apartamento não tinha origem nos contratos da OAS com a estatal. E Flávio certamente aplaude a prisão. A família Bolsonaro chama Lula de "bandido" nas redes sociais. Mais: os Bolsonaros e suas milícias virtuais aplaudiram e aplaudem todos os vazamentos feitos pela Lava Jato contra políticos investigados. Voltemos à entrevista.

Flávio sabia o que fazia seu braço direito em seu gabinete? Ele diz que não. Sabe onde está o sumido Fabrício? Ele diz que não. Tem notícia dos funcionários de seu gabinete? Ele diz que não. Tem ideia de como Fabricio pagou a conta do hospital Albert Einstein? Ele diz que não. Sabe como Fabrício movimentava tanto dinheiro? Ele diz que não.

Ah, por favor, não pensem que Flávio Bolsonaro é contra a investigação. Isso nunca. Aí ele diz:
"Quebraram meu sigilo bancário sem autorização da Justiça e expuseram isso em rede nacional. Como eu me defendo disso? Minha intimidade ninguém respeita? Minha chateação é com alguns pouquíssimos integrantes do Ministério Público que estão tentando atacar minha imagem para atacar o governo Jair Bolsonaro. Infelizmente, tem militância política em tudo quanto é instituição e no Ministério Público não é diferente. O Ministério Público está esculachando o Judiciário toda hora em meu caso, e o Judiciário não faz nada."

O filho do presidente que tem Abraham Weintraub na Educação e Ernesto Araújo no Itamaraty está criticando a militância política em órgãos públicos?

Mais adiante, diz sobre o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), hoje sob o comando de Sérgio Moro e que pode voltar para o Ministério da Economia:
"O Coaf pode ter acesso às movimentações financeiras de qualquer pessoa sem autorização judicial. Não pode compartilhar essas informações com o Ministério Público se for de forma tão específica, como foi meu caso."

Opa! Há uma confusão aí. Compartilhar pode! O Ministério Público, recebendo a informação sobre a movimentação atípica, pode recorrer à Justiça para, então, solicitar a quebra do sigilo bancário e fiscal. Segundo Flávio, no seu caso, procedeu-se a uma quebra informal de sigilo. Se isso aconteceu, e precisa ser demonstrado, então se está diante de uma ilegalidade. E tem de ser combatida, a exemplo de qualquer outra. Mas venham cá: por que o senador não se coloca, então, contra todos os vazamentos ilegais, incluindo aqueles que prejudicam os adversários políticos da família Bolsonaro? Seu pai seria presidente sem as ilegalidades praticadas pela Lava Jato? Resposta: não! E, no entanto, Sérgio Moro virou ministro da Justiça. É bem verdade que Bolsonaro já quer se livrar dele.

As explicações de Flávio são tão convincentes como seu alegado distanciamento das milícias. Homenageou milicianos ao longo da carreira e empregou familiares da turma. Mas, claro!, mais uma vez, não tem nada com isso. E chega a dizer: "Nunca defendi miliciano". Não? Então refresco a memória do senador. Em um discurso na Assembleia Legislativa do Rio, disse:
"A milícia nada mais é do que um grupo de policiais, militares ou não, regidos por uma certa hierarquia ou disciplina, buscando, sem dúvida, expurgar do seio da comunidade o que há de pior: os criminosos." Foi além: "Há uma série de benefícios nisso". E emendou: "Eu, por exemplo, gostaria de pagar 20 reais, 30 reais, 40 reais, para não ter meu carro furtado na porta de casa, para não correr o risco de ver o filho de um amigo ir para o tráfico, de ver um filho empurrado para as drogas".

Como se nota, Flávio condecorou e defendeu as milícias. Negá-lo é tão convincente como dizer que não tinha como saber o que Fabrício fazia não em um algum lugar distante, longe dos seus olhos, mas dentro do seu gabinete.

A propósito: Flávio acha que o Coaf, chefiado por Sérgio Moro, participa da quebra ilegal de sigilo apenas de um Bolsonaro ou pode fazer o mesmo com qualquer brasileiro?

Para ler uma série de posts intitulada "OS BOLSONAROS E AS MILÍCIAS", clique aqui.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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