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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Incompetência arrogante - É mentira o que diz Bolsonaro ou o que diz Moro?

Reinaldo Azevedo

2013-05-20T19:17:09

13/05/2019 17h09

Moro no dia em que foi convidado para ser ministro de Bolsonaro: ele ainda era juiz da Lava Jato. Imoralidade intrínseca

Que o sr. Sérgio Moro não estava nem aí para o estado democrático e de direito, bem, disso sabiam todos os que acompanhamos de perto a área. Seu reiterado desprezo pelas garantias e pelos direitos constitucionais já ficou exposto em inúmeros atos protagonizados por aquilo que chamo PAPOL (Partido da Polícia), cujo nome-fantasia é a Lava Jato. Agora, ficamos sabendo que o juiz-ministro, que se disse, ao assumir, um técnico, é um corifeu da velha política, de dar inveja às suas vítimas — com ou sem razão — e de fazer corar até mesmo a caricatura que se pinta do "centrão".

Eis que em resposta a humilhações tantas e várias produzidas pelo seu chefe, Moro mandou recados, nunca diretos, segundo os quais poderia deixar o belo prédio que ocupa na Esplanada dos Ministérios. Sim! Apenas "ocupa" porque ministro nunca foi. E agora sabemos que nunca o será, pois, na negociata política — e a palavra é essa — em que deu o seu nome para compor a equipe do presidente, levou em troca uma cadeira no STF. Ou seja: danem-se as vidas e a segurança dos brasileiros e brasileiras. Ou que sirvam, então, de trampolim para a satisfação egoísta e narcísica do "climber" de Curitiba…

Isso explica a sua total desatenção com a Segurança Pública, lá se vão quase cinco meses de trampolim — ou de ministério. O legado de menos de um ano que durou a pasta da Segurança no governo Temer resultou em leis, políticas e recursos inéditos e há muito reivindicados por governadores, acadêmicos e polícias, entregues de bandeja a Moro.

Criou-se o SUSP, Sistema Único de Segurança Pública, que integra e dá rumo à área, coordenando as ações das polícias, Forças Armadas, academia, Ministério Público, Judiciário etc, todos reunidos num Conselho Nacional, com uma política única definida, com metas, com auditoria e com base de dados. Em resumo: a Segurança Pública passou a ter ferramentas para uma ação baseada em evidências, técnicas e resultados. É disso que se precisa para o combate ao crime organizado e à violência.

O ministro-em-trânsito recebeu ainda recursos essenciais e vultosos, antes inexistentes. O BNDES criou o Pró-Segurança, com dotação de R$ 40 bilhões para financiar ações em Estados e municípios ao longo de cinco anos. Mediante lei, parte da arrecadação das loterias esportivas geridas pela CEF foi destinada ao Fundo Nacional de Segurança Pública, com previsão de R$ 2 bilhões neste ano. Esses recursos são necessários para equipar polícias, construir presídios, comprar tecnologia, capacitar pessoal, estruturar centros de inteligência etc.

Tudo isso está paralisado, inerte! Nada teve continuidade. Nem o SUSP está sendo implementado, e os recursos estão paralisados ou contingenciados. As operações nacionais envolvendo todos os Estados e polícias contra as facções e o crime organizados já não ocorrem mais… Afinal, a aposta do Supremo Ministro é num pacote dito anticrime que dá licença para a polícia matar. Amplia ainda o encarceramento, o que, num sistema prisional superlotado, só irá ampliar os seus exércitos de mais de 70 facções criminosas geradas lá dentro, mas que controlam a violência e o tráfico cá fora.

Ao mesmo tempo em que aposta numa lei cujos resultados negativos seriam imediatos (como a já aludida licença para matar), e os positivos, se houver, virão no longo prazo, Moro empenha-se numa batalha perdida para manter o COAF sob seu controle, como se o órgão, no Ministério da Economia, perdesse sua eficácia já demonstrada. De quebra, quer fazer o futuro chefe da Procuradoria-Geral da República e incentiva, ainda que por meios indiretos, a ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) e Deltan Dallagnol, o missionário contra o Estado de Direito, a atacar Raquel Dodge, a atual procuradora-geral. Nota: em 2018, houve uma queda de 12,8% no número de homicídios em comparação com 2017.

Até ontem algoz dos políticos, partidos e da política e tido como grande estrategista(?!), Moro pendura sua gestão no mesmo pescoço em que antes pendurava a corda do cadafalso: o Congresso Nacional, que o detesta por boas razões. Seu tal pacote anticrime, ademais, atropela comissão e projeto similar preexistente, da lavra de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo.

Toda essa pífia performance era atribuída ao ministro jejuno nas artes e códigos de Brasília. Era! Agora, sabemos que ele sempre esteve de passagem pela Justiça e Segurança Pública. De início, a sua meta era o tal "Pretório Excelso", o STF. O chef do Executivo percebeu, no entanto, que seu subordinado queria bem mais do que uma das 11 cadeiras dos sumos magistrados. Ambicionava mesmo era o assento principal da Presidência da República.

Com uma só revelação — a de que houve troca-troca por ocasião de sua indicação para a Justiça —, Bolsonaro dinamitou o ambicioso que já mirava o Palácio do Planalto, o ministro da Justiça inoperante e o eventual candidato ao Supremo.

Restou a Moro desmentir Bolsonaro.

Vejam que coisa: ou é mentira o que diz o presidente ou o que diz o ministro da Justiça.

Nesse caso, acho que a verdade está com Bolsonaro, ainda que uma verdade imoral.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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