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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Os Bolsonaros no ataque: não existe o menor perigo de esse troço dar certo

Reinaldo Azevedo

2015-05-20T19:16:36

15/05/2019 16h36

Carlos Bolsonaro, aquele vereador a menos do Rio, continua a enviar mensagens para o mundo da Lua. Ou nem tanto. Vamos ver.

Desta feita, no Twitter, ele escreveu o seguinte enigma:
"Onde estão os caras feias, os identificadores de problemas, os escritores de cartas para aliados 'desbocados'? O silêncio não tem nada a ver com a descoberta de seus devidos lugares. O que está por vir, pode derrubar o Capitão eleito. O que querem é claro!"

– Quem serão os "caras feias"?
– Quem serão os "identificadores de problemas?
– Quem serão os "escritores de cartas para aliados desbocados"?
– O que quer dizer "o silêncio não tem nada a ver com a descoberta dos seus devidos lugares"?
– O que estará por vir, com poder para "derrubar o capitão eleito"?

Seja o que for, não cabe aquela vírgula, claro!, entre "vir" e "pode".

A própria imprensa resolveu chamar alguns malucos que dão plantão na rede de "influenciadores". Carlos, com coisas como a que se lê acima, é o maior influenciador do pai, que vem a ser presidente da República.

A linguagem é de maluco, mas parece que a preocupação é de quem sabe o que fez no verão passado. Um dia antes de a Justiça revelar que havia quebrado o sigilo bancário e fiscal de Flávio Bolsonaro, o senador veio a público para se dizer vítima de um complô e para cobrar o fim da investigação. Deu tudo errado. Em vez disso, os investigadores terão acesso às contas de Flávio, de Fabrício Queiroz e de mais 88 pessoas. Entre essas contas, está aquela que serviu para o ex-faz-tudo de Flávio repassar dinheiro para Michelle Bolsonaro, mulher do presidente.

Agora Carlos se sai com mais uma charada grega, relida por um Bolsonaro, como a sugerir uma conspiração para derrubar aquele que ele chama impropriamente de "capitão eleito". O diabo é que já não é apenas eleito. O cara é presidente da República. E tem a obrigação de governar.

O filho dito Zero Dois ainda divulga um vídeo de um bolsonarista que também alimenta a tese do complô. Os principais alvos do ataque são ninguém menos do que Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, e os parlamentares do chamado "centrão". Vale dizer: o "sangue do sangue" de Bolsonaro, com quem ele sempre estará, segundo anunciou, segue firme na tarefa de destruir qualquer possibilidade de formar uma base estável de apoio.

Ou por outra: Carlos e seus seguidores anunciam o que sugerem ser um golpe porque, na verdade, só imaginam ser possível governar à moda do capitão caso se dê um… golpe!

ALVO OUTRA VEZ
Rodrigo Maia, diga-se, passou a ser, de novo, alvo fixo do rapaz. Como já está claro que Carlos só publica o que Jair aprova, o resto se explica. Com o vazamento de parte do conteúdo da estranha delação de Henrique Constantino, um dos donos da Gol, o bolsonarismo transformou, de novo, o presidente da Câmara na Geni dos desbocados.

Nesta terça, aquele que foi apelidado pelas redes de "Tonho da Lua" mandou brasa no Twitter:
"Aonde está aquela parte da imprensa porca diante do principal fato político do dia? Requentar notícia velha e totalmente manipulável e esquecendo-se dos outros é a jogada. Querem a volta do sistema. Quem perde não é o governo, é o Brasil que se não acordar será tarde."

Não citou o nome de Maia, como se nota, mas falava sobre o deputado, sim. Seus seguidores perceberam e passaram a descascar o presidente da Câmara. Não ocorreu ao buliçoso rebento de Bolsonaro que o vazamento sobre a acusação que Constantino faz contra Maia tinha sido publicado justamente por veículos da chamada "imprensa porca", ainda que ninguém disponha de dados para saber se o troço faz ou não sentido. Por óbvio, quem vazou a informação tinha o interesse de enfraquecer o parlamentar. E uma inteligência mesmo mediana — nem é preciso ser um gênio como Carlos — conclui de cara que, hoje, o próprio presidente seria o maior beneficiário do enfraquecimento de Maia. Basta seguir a pista.

DESALENTO
O desalento se espalha na seara política e, ora vejam, econômica. Os empresários que caíram no conto bolsonarista estão descobrindo que não há milagre. Exceção feita a algumas figuras meio momescas, que confundem alpinismo social com empreendedorismo, a decepção é gigantesca. Não foi por falta de aviso. Os desastres vão se produzindo em todos os cantos.

Nesta terça, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, defendeu que o Brasil tenha bombas atômicas e ligou o programa da Marinha, que desenvolve o navio a propulsão nuclear, à tecnologia de guerra. Refletiu:
"São bombas nucleares que garantem a paz. Se nós já tivéssemos os submarinos nucleares já finalizados, que têm uma economia muito maior dentro d'água; se nós tivéssemos um efetivo maior, talvez fôssemos levados mais a sério pelo (Nicolás) Maduro, ou temidos pela China ou pela Rússia."

Ao fazer uma afirmação como essa, defende que o país venha a desenvolver armamento nuclear; põe sob suspeição o programa da Marinha — que nada tem a ver com a construção de uma bomba; aliás, sem Lula, tal programa nem existiria —; sugere que o Brasil deva dominar a tecnologia da bomba para se impor sobre os vizinhos — além da Venezuela, há a Argentina, segundo destino das exportações brasileiras — e, como resta claro, trata a China, primeiro destino das exportações, como adversária.

Não! Ninguém precisa ser um adversário intelectual ou político do governo Bolsonaro para indagar e responder: "Existe algum perigo de que isso dê certo?"

O PRESIDENTE
E, finalmente, temos o presidente da República, ele mesmo, que é o pai de todos: de Flávio, de Carlos e de Eduardo. Ao perceber, a partir das universidades, que começa a se desenhar uma resistência com chances de ser consistente contra seu governo — até porque bem mais ampla do que os nichos esperados de resistência à esquerda —, resolve reagir tachando a todos de idiotas e manipulados.

Seu chefe da Casa Civil, o inefável Ônix Lorenzoni, dá a sua mãozinha. Segundo este outro pensador, o corte de verba para as universidades é como adiar a compra de um vestido de festa de formatura.

Está tudo explicado, certo?

Responda: existe algum perigo de isso dar certo?

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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