Topo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Depois de carta, saída para “Mito” é suicídio ou renúncia; sugiro a segunda

Reinaldo Azevedo

18/05/2019 07h09

Bolsonaro divulgou uma "carta" anônima de algum especulador que andou tomando na cabeça. Deve ter feito uma leitura errada da realidade e um diagnóstico equivocado sobre as potencialidades do grande líder. Enquanto escrevo, o dólar fechou em alta de mais de 1,58%, cotado a R$ 4,1020 (houve casa de câmbio vendendo a R$ 4,50 no cartâo pré-pago) e o índice Bovespa em queda, fechou em 89.963 pontos. Poucos se deram conta de que o especulador vertido em sociólogo pedestre conclui seu texto com um "sell" (sic). Não sendo alguma senha secreta para golpe ou sugestão de suicídio, quer dizer "venda" — isto é: aposte contra o governo. Ou, numa outra dimensão, contra o Brasil.

Temos um presidente da República que manda divulgar um "documento" sugerindo que os investidores caiam fora.

O pensador anônimo ataca a "compra de votos para a reeleição, os conchavos para a privatização, o mensalão, o petrolão e o tal presidencialismo de coalizão". Notem que na sua leitura da história não houve, por exemplo, Plano Real. Também as privatizações foram negativas, claro! Vai ver Bolsonaro as combateu por isso. E se não gosta do "presidencialismo de coalizão" quer o quê? Resposta: poder unipessoal, depois de um golpe.

A exemplo de todo fascistoide que enverga as vestes de tribuno da plebe, o tal investe contra políticos, sindicalistas, Judiciário… E, ora vejam, viria o salvador da pátria para dar um jeito na tigrada. Mas o autor anônimo está decepcionado: as corporações não estariam deixando o demiurgo governar.

E aí vem o ataque ao Congresso, que estaria impedindo até a votação da MP da reestruturação do governo. O tonto só se esqueceu de dizer que Bolsonaro não têm interlocutores com o Parlamento, mas uma escória que ou se ocupa de irrelevâncias ou se perde na gestão de sua parca e porca biografia nas redes sociais.

E o bruto ainda se atreve a atacar os "ana(lfabe)listas políticos".

Seu horizonte é golpista: "A continuar tudo como está, as corporações vão comandar o governo bolsonaro na marra e aprovar o mínimo para que o Brasil não quebre, apenas para continuarem mantendo seus privilégios."

E para que não continue? Bem, ele deve ter alguma ideia em mente…

Sempre falando como tribuno da plebe, prevê: "O moribundo-Brasil será mantido vivo por aparelhos para que os privilegiados continuem mamando. É fato inegável. Está assim há 519 anos, morto, mas procriando. Foi assim, provavelmente continuará assim."

Notem como nada serve, o que evidencia a matriz fascitoide do pensamento, embora, mesmo nessa condição, fale um amador:
"Antes de Bolsonaro vivíamos em um cativeiro, sequestrados pelas corporações, mas tínhamos a falsa impressão de que nossos representantes eleitos tinham efetivo poder de apresentar suas agendas. Era falso, FHC foi reeleito prometendo segurar o dólar e soltou-o 2 meses depois, Lula foi eleito criticando a política de FHC e nomeou um presidente do Bank Boston, fez reforma da previdência e aumentou os juros, Dilma foi eleita criticando o neoliberalismo e indicou Joaquim Levy. Tudo para manter o cadáver procriando por múltiplos de 4 anos."

Algum aluno de Olavo de Carvalho escapou do zoológico.

O Bolsonaro que recomendou que se espalhe o texto endossou, também, este trecho:
"Agradeçamos a Bolsonaro, pois em menos de 5 meses provou de forma inequívoca que o Brasil só é governável se atender o interesse das corporações. Nunca será governável para atender ao interesse dos eleitores. Quaisquer eleitores. Tenho certeza que esquerdistas não votaram em Dilma para Joaquim Levy ser indicado ministro. Foi o que aconteceu, pois precisavam manter o cadáver Brasil procriando. Sem controle do orçamento, as corporações morrem."

Logo, o presidente da República está dizendo que não tem mais o que fazer, que não sabe como governar o Brasil e que os imensos poderes de que dispõem não são suficientes para levar adiante seu propósito.

Ou dá um golpe e governa como ditador, ou a recomendação é "sell": vendam, caiam fora.

O que dizer a um presidente que divulga um lixo moral como esse? Restam-lhe duas alternativas: renúncia ou suicídio. Caso permaneça, talvez possa pensar também em cadeia.

Chega!

Não dá mais para condescender com um sujeito que confundiu sua vocação de chefe de quarteirão com talento para a Presidência da República. Jamais lograria o seu intento não fosse o lava-jatismo alçá-lo à condição de demiurgo — com a colaboração involuntária, é verdade, dos setores da imprensa que não atentaram para a rotina de agressões ao Estado de direito.

E deixo uma recomendação ao autor anônimo da estrovenga: repita o nível "Massinha I" de história e sociologia. Seu texto é uma merda.

Post publicado originalmente às 17h29 de sexta

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Mais Reinaldo Azevedo