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Reinaldo Azevedo

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Moro e Coaf: “liberais” votam como comunistas, e comunistas, como liberais

Reinaldo Azevedo

2022-05-20T19:22:16

22/05/2019 22h16

Sergio Moro: ele certamente não gostou do resultado da votação

Com elogios de Rodrigo Maia (DEM-RJ) ao espírito colaborativo da oposição, a Câmara aprovou, como vimos, o texto-base da MP 870, que trata da reestruturação administrativa do governo. Foram mantidos os 22 ministérios. O ministro Sergio Moro, da Justiça, foi derrotado na votação de um destaque: por 228 votos a 210, os deputados decidiram que o Coaf não fica no Ministério da Justiça. O texto ainda precisa passar pelo Senado.

Votaram nesse item apenas 443 deputados. Muita gente ainda está com medo da máquina de difamação organizada nas redes sociais, o que explica a maioria das 91 ausências.

O PSL foi o partido que mais deu votos para Moro: 53 disseram "sim" à permanência do Coaf na Justiça, exceção feita à deputada Aline Sleutjes (PB), que estava ausente. O PT concentrou o maior número de "nãos": teria sido uma unanimidade não fosse um "sim" de Vicentinho (SP) e a ausência de Assis Carvalho (PI): 53 nãos.

O PSD, de Gilberto Kassab, e o PSDB, hoje de João Doria, votaram, na esmagadora maioria, como queria o ministro. Seria fidelidade a Jair Bolsonaro? Mas este não estava assim tão interessado em manter o Coaf com Moro… O PSDB deu apenas cinco votos contra a pretensão do ministro da Justiça; 21 se alinharam com ele. Houve quatro ausências. O PSD se comportou quase como uma seita morista, com direito a poucas divergências: houve um único voto em favor da volta do Coaf para a economia; cinco parlamentares se ausentaram, e 30 se alinharam com o ex-juiz. Dos 27 votos do DEM, partido de Maia, que não vota, 11 disseram "não" a Moro; 9, sim, e houve seis ausências. Uma curiosidade: o PR se ausentou em peso: seus 11 deputados não compareceram para votar.

O MDB teve 8 ausências. Dos que votaram, 8 disseram "sim" à permanência do Coaf na Justiça, mas 18 fizeram o contrário. O esquerdista PDT deu um número considerável de votos a Moro: 8, mas 19 lhe disseram "não". A jovem estrela em ascensão no partido, Tábata Amaral (SP), não votou. Dois partidos não tiveram nem ausências nem votos contrastantes. Os oito do PCdoB disseram "não" à permanência do Coaf com Moro, e os oito do "Novo" disseram "sim".

O Brasil está mesmo da pá virada. Os que se dizem comunistas são favoráveis a que um órgão de controle saia das mãos da polícia — que é o certo a fazer. Ocorre que esquerdistas costumam gostar da vigilância do Estado. A turma do "Novo", que se diz liberal, opta por um controle financeiro de caráter policial. Os comunistas votam como se fossem liberais, e os liberais, como se fossem comunistas.

A contradição é aparente. O "Novo" é um partido com características abertamente reacionárias. E Moro, como é sabido, serve a seus propósitos.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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