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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Na antevéspera da patuscada golpista, Bolsonaro deve se achar muito esperto

Reinaldo Azevedo

2024-05-20T19:00:02

24/05/2019 00h02

Ilustração de reportagem da "Veja" de 1987, que traz o croqui feito por Bolsonaro para explodir a adutora do Guandu. Um patriota!

O presidente Jair Bolsonaro deve estar se achando o rei da esperteza. Em café da manhã nesta quinta com alguns poucos jornalistas reais e muitos autointitulados — são militantes políticos da seita… bolsonarista —, afirmou que aqueles que forem às ruas no domingo marchar contra o Supremo e contra o Congresso estarão na manifestação errada. E conseguiu se lembrar de uma frase de efeito que alguém certamente lhe soprou aos ouvidos: "Isso é manifestação a favor de [Nicolás] Maduro, não de Bolsonaro". O registro é do site "Poder 360", cujo representante à mesa integrava o grupo dos jornalistas de fato, não de ficção. E de onde vem a satisfação consigo mesmo? Explico.

Ora, foi o presidente da República quem, na sexta passada, por meio da divulgação de um chororô golpista e mal alinhavado, anunciou a seus fiéis que está em curso um complô que torna o país ingovernável. Ou essas forças são neutralizadas, ou aquele que veio para nos salvar ficará de mãos atadas. No sábado, ele pôs para circular o vídeo de um pastor congolês que assegura que o Jair é mesmo o nosso messias. Opor-se a suas ideias corresponderia a lançar-se contra a vontade de Deus. Filipe Martins, seu assessor especial, braço armado com tuítes do olavismo doidivanas, convocou todos os templários a combater o mal.

Ora, constitui crime de responsabilidade identificar-se com uma pauta que abertamente hostiliza Supremo e Congresso e que prega um golpe de Estado — no caso, um autogolpe: Bolsonaro lideraria, com o apoio das Forças Armadas, o esmagamento dos dois outros Poderes. A isso os malucos chamam aplicar o Artigo 142 da Constituição, como se o dito-cujo não definisse justamente o contrário. As Forças Armadas são garantidoras da Constituição e do livre exercício dos Poderes. Não o contrário.

Mas sabem como é… O "capitão" já teve ideias insanas antes, como explodir bombas em quarteis ou na adutora do Guandu, que abastece o Rio de Janeiro, conforme revelado pela "Veja" em 1987. Tratava-se, então, de um protesto, imaginem vocês!, contra os vencimentos dos militares. Quem consegue chegar a tal delírio tendo colegas de tropa e a população civil como alvos pode sonhar em mandar para os ares, por intermédio de um golpe, dois Poderes da República. Aliás, dado esse histórico, alguns militares da reserva que agora se mostram chocados com o governo Bolsonaro podem até ter o direito de ficar melancólicos, deprimidos, chateados… Mas nunca surpresos.

O insuspeito de esquerdismo Ernesto Geisel, em depoimento aos professores Maria Celina d'Araújo e Celso Castro, assim se referiu em 1986 ao hoje presidente da República: "Presentemente, o que há de militares no Congresso? Não contemos o Bolsonaro porque o Bolsonaro é completamente fora do normal, inclusive um mau militar". Os generais que hoje estão um tanto perplexos deveriam ter se lembrado da ficha — também a de soldado — do candidato que abraçaram.

Ainda na condição de rei da esperteza, o presidente pondera, em sua conversa com jornalistas reais e autointitulados, sobre a possibilidade de haver na rua defensores do golpe contra o Congresso e o Supremo. Diz que "um infiltrado defendendo essas ideias e usando a camisa amarela" até pode aparecer por lá. Ele finge esquecer que seus liderados gravam lives dentro da Câmara chamando seus próprios colegas de "bandidos".

E como ele explica aquele papo de que os políticos é que prejudicam o Brasil. Bolsonaro tenta engabelar:
"Gente, eu estou no bolo, eu sou político. A classe política somos todos nós, estamos no poder desde depois de Figueiredo. Estou no bolo. Estou me incluindo no bolo".

Sim, claro!, ele é político também. Mas não foram seus pares a, na prática, pedir poderes excepcionais para governar. Quem o fez foi Jair Messias Bolsonaro, aquele que desenhou no papel o esquema para explodir a adutora. Não é preciso que um radical de esquerda se infiltre nas hostes da extrema-direita bolsonarista para lhes atribuir o que não pensam. O pensamento da turma já é uma caricatura. Não há inimigo, com a natural propensão para a hostilidade, que possa se desincumbir melhor da tarefa.

Bolsonaro, na prática, convocou a manifestação. E é o responsável político por aquilo que acontecer no domingo nas ruas e, a partir de segunda, no Congresso.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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