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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Para Clóvis Rossi: “Lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta”

Reinaldo Azevedo

2014-06-20T19:09:41

14/06/2019 09h41

Clóvis Rossi:: morre o indivíduo, não a obra. Ele soube honrar Sua Majestade o Fato

Clóvis Rossi morreu aos 76 anos. Quando chega aquela que Manuel Bandeira chamou a "iniludível", lamentam os que ficam – em primeiro lugar, seus familiares, os que se sentiram protegidos e acarinhados por seus afetos, por seus desvelos, por seus cuidados nessa nossa vida meio besta, que pode ser interrompida assim, numa madrugada sem por quê.

É essa fragilidade que esconde o segredo de lutarmos por coisas tais e quais, de termos ideias, de fazermos escolhas. No fim das contas, poderia indagar Ascenso Ferreira, num poema bem-humorado: "Pra quê?". E ele mesmo deu a resposta "Pra nada!" Mas quanto se ganha na trajetória!

Não chegamos a ser amigos. Éramos conhecidos cordiais. Quando eu comecei, Rossi já era um gigante, muito além do seu 1m98. Convenham: não se ignora tal porte nem num elevador que reúne desconhecidos. Mas ele se fazia notar, por óbvio, pela capacidade de enxergar além do óbvio, pela defesa firme dos valores democráticos, pelo apego aos critérios que fazem o bom jornalismo — dedique-se o profissional à reportagem, à análise ou à opinião. Em qualquer dos casos, a base da escrita há de ser o amor ao fato.

Nestes dias confusos, atrapalhados, moralmente estropiados, em que um cretino qualquer chama de "direito à opinião" a sua convicção, por exemplo, de que a Terra é plana, Rossi nos lembrava de um clichê obrigatório — e, pois, de um norte moral e técnico: sim, as pessoas têm direito à própria opinião, mas não aos próprios fatos. Assim como existe "fake news", existe a "fake opinion", que é aquela ancorada numa fantasia, numa irrealidade, no puro discurso ideológico.

Quando há um bom momento para ir? Nunca para os que ficam. Nunca, em especial, para aqueles do círculo afetivo. O mais pateticamente apaixonante da vida humana é atuarmos como se eternos fôssemos, conscientes, no entanto, da nossa finitude. Por isso somos todos dignos de admiração e piedade. Eu sempre me comovo com a ideia de um "supraolhar" a nos acompanhar, assim, atarantados, zanzando pra lá e pra cá, fazendo coisas — "Monalisa", "A Flauta Mágica", um bolo de laranja —, cheios de esperança, cheios de futuro, cheios de nada. Porque é nada o que se leva.

Há a obra. Esta fica. Fica seu queixo no queixo do seu filho, como escreveu o poeta. Fica a trilha que se trilhou.

Discordei de Rossi mais de uma vez — e julgo que homenageava seu próprio modo de ver o mundo ao fazê-lo. Mas sempre reconheci em seu trabalho a coragem, a honestidade intelectual, a disposição para desafinar o coro dos contentes, o rigor técnico, a reverência à Sua Majestade o Fato, a integridade profissional de quem não se deixa constranger por vagas influentes de opinião. Concordássemos ou não, fazia questão de saber o que ele pensava. Porque também na discordância a sua opinião ajudava a iluminar a minha.

Em nove meses, mais uma dura perda para a "Folha" — no dia 21 de agosto do ano passado, morreu Otavio Frias Filho. E aqui e ali muitos podem torcer: "Que morra a própria Folha!"

Não morre, não. Porque não morreu Otavio. Não morreu Clóvis. Não morreremos nós.

Somos eternos nas nossas flautas mágicas, nas nossas Monalisas, nos nossos bolos de laranja, na nossa vidinha besta. Eis o mistério irrepetível do humano: sabemo-nos morrendo — somos o único bicho a ter essa consciência —, e a fuga da morte nos constrói e nos define.

E, hora dessas, ela nos pega distraídos.

E "distraídos, venceremos", escreveu outro poeta.

Estou longe de São Paulo e não poderei ir ao velório de Clóvis.

Os que o amavam e o admiravam estão sofrendo orgulhosamente.

Despeço-me, agora sim, com a íntegra de "Consoada", de Manuel Bandeira:

Quando a Indesejada das gentes chegar

(Não sei se dura ou caroável),

Talvez eu tenha medo.

Talvez sorria, ou diga:

– Alô, iniludível!

O meu dia foi bom, pode a noite descer.

(A noite com seus sortilégios.)

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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