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Reinaldo Azevedo

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MORO E A MONTANHA 1: Veio à luz ratazana pestilenta do ataque à ordem legal

Reinaldo Azevedo

2024-06-20T19:07:26

24/06/2019 07h26

A divulgação das relações espúrias entre o então juiz Sergio Moro, hoje ministro, e Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato está, consta, apenas no começo. Até que a verdade não consiga desmoralizar de forma inquestionável a mistificação, é natural que pareça haver um empate na guerra de versões. Moro finge fazer pouco caso das informações que vêm a público, mas exibe sinais crescentes de fragilidade; os procuradores da força-tarefa insistem em misturar as informações com o que consideram uma ação criminosa de hackers; as forças políticas que gravitam em torno do imbróglio ou que são protagonistas de atos relacionados à Lava-Jato fazem a leitura que parece mais conveniente a seus interesses. É o esperado. Ao jornalismo que não faz militância política nem disputa o poder, resta a tarefa de ater-se aos fatos.

Reportagem publicada neste domingo em parceria entre a "Folha de S. Paulo" e o site "The Intercept Brasil" evidencia, sim, como lá se lê, que a força-tarefa se mobilizou, em março de 2016, para proteger o então juiz Sergio Moro de eventual ação corretiva do Supremo ou do Conselho Nacional de Justiça. Sempre se pode perguntar: "Mas isso é assim tão grave?" Fosse só isso, não seria — desde que as ações, então, de proteção ao juiz estivessem amparadas na lei. Mas não estavam.

O que aconteceu naquele março? Como informa a reportagem, "por um descuido, a Polícia Federal anexou no dia 22 de março de 2016 os documentos da Odebrecht aos autos de um processo da Lava Jato sem preservar seu sigilo, o que permitiu a divulgação do material por um blog mantido pelo jornalista Fernando Rodrigues". Ocorre que em tal lista estavam políticos que tinham direito a foro especial — isto é, só poderiam ser processados pelo Supremo Tribunal Federal.

Moro ficou descontente e acionou Deltan Dallagnol, chamando a ação da PF de "tremenda bola nas costas" porque, afirmou, poderia caracterizar uma afronta ao Supremo. Ambos combinam, então, estratégias para evitar uma reação negativa do ministro Teori Zavascki, relator do petrolão no tribunal, que já havia repreendido Moro pela divulgação ilegal de grampo também ilegal que envolvia a então presidente Dilma Rousseff.

Moro combina com Dallagnol os passos que dará para reduzir os danos diante do tribunal. O procurador lhe promete apoio integral e diz que vai mobilizar o representante da Associação Nacional de Procuradores da República no Conselho Nacional de Justiça, buscando proteger o então juiz e, por incrível que pareça, manda mensagens para o delegado então encarregado daquela ação, Márcio Anselmo. Achando pouco, sugere ainda que se faça contato com membros do MBL para desestimular protestos contra o ministro Teori Zavascki.

Divulgados os diálogos, Moro resolveu apelar ao latinório e citou o grande poeta Horácio para uma causa ruim: "Parturiunt montes, nascetur ridiculus mus": "Partejarão as montanhas, nascerá um ridículo camundongo". Trata-se do famoso "a montanha pariu um rato". É a arrogância do desespero. Em primeiro lugar, Moro não sabe o que mais pode cuspir a montanha. Em segundo lugar, o que se tem já é de extrema gravidade. E não adiante tentar fazer o jogo do contente.

O tom das conversas é absolutamente impróprio. Nos diálogos deste domingo e nos outros, fica evidente que é Moro o real coordenador da Lava Jato, não Deltan Dallagnol. É ele que orienta a investigação e o trabalho da acusação. Logo, como pode ser o juiz de processos de que ele mesmo se comporta como instrutor? Vamos dar as características da ratazana pestilenta que a montanha deu à luz neste domingo — muito mais gorducha, lustrosa e perigosa do que um camundongo?
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Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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