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Bolsonaro, Macron e Merkel: nossa turma é o mundo, general Heleno!

Reinaldo Azevedo

28/06/2019 07h39

Bolsonaro durante entrevista no Japão. Está tudo fora do lugar: o cabelo, as ideias e a ira

Não vai demorar, e o Brasil — um ente que, a rigor, não existe; existem os brasileiros — vai começar a arcar com as consequências de um governo que é mais boquirroto do que propriamente efetivo mesmo naquilo que lhe atribuem de mal. Não é novidade para ninguém que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, escolheu o caminho do conflito e do confronto com os órgãos ambientais. O noticiário está aí para comprová-lo. As consequências de seu alarido ideológico, afinado com o presidente da República, já se fazem sentir na reunião do G-20, no Japão. Em menos de 24 horas, o país entrou em rota de colisão com dois grandes: a Alemanha e a França. E o que os brasileiros vão ganhar com isso? A resposta óbvia: nada!

Está tudo fora do lugar. O presidente da França, Emmanuel Macron, cancelou unilateralmente uma reunião que manteria com Bolsonaro, prevista para as 14h25 desta sexta no horário local. Os motivos não foram explicitados. Mas, obviamente, trata-se de um gesto hostil ao governo brasileiro. "Ora, o que devemos à França? Eles que se danem!" Pois é… Essa parece ser a tônica na política externa brasileira,  o que é de uma irresponsabilidade ímpar.

Macron, que comanda a segunda maior economia da União Europeia, já havia dito que são nulas as chances de haver um acordo do bloco com o Mercosul se o Brasil deixar o Acordo de Paris. Autoridades brasileiras e europeias estão em Bruxelas negociando o entendimento entre os dois blocos.

Não foi a única trombada decorrente de uma política externa que também foge a qualquer parâmetro de racionalidade, alinhada, não obstante, com o espírito que emana do Palácio do Planalto.

ALEMANHA
Na quarta-feira, a chanceler alemã, Angela Merkel, líder da maior economia da UE, concedeu uma entrevista em que afirmou:
"Assim como vocês, vejo com grande preocupação a questão das ações do presidente brasileiro [em relação ao desmatamento], e, se ela se apresentar, aproveitarei a oportunidade no G20 para ter uma discussão clara com ele".

Nesta quinta, ao comentar o assunto, com um cabelo que poderia se classificado de impossível, ar entre cansado e irado, Bolsonaro afirmou, aproveitando para fazer um ataque infundado a antecessores:
"Eles [alemães] têm a aprender muito conosco. O presidente do Brasil que está aqui não é como alguns anteriores que vieram aqui para serem advertidos por outros países. Não, a situação aqui é de respeito para com o Brasil. Não aceitaremos tratamento, como no passado, de alguns casos de chefes de Estado que estiveram aqui".

Esses governantes brasileiros subalternos, de que trata Bolsonaro, só existem na sua imaginação e das milícias virtuais. Lula, diga-se, era chegadinho a dar aulas a governantes internacionais, mas o fazia, acertando ou errando, de uma maneira inclusiva, não hostil. E Bolsonaro seguiu, desta feita atacando a imprensa: "Lamentavelmente, grande parte do que a imprensa escreve, não é aquilo".

Um jornalista lembrou que a fala de Merkel havia sido publicada pela imprensa alemã. Com rispidez, respondeu: "Não interessa se é a alemã. E deixa eu terminar o raciocínio, faz favor, tá? Então é preciso fazer a devida filtragem para não se deixar contaminar por parte da mídia escrita em especial". E abandonou a entrevista, sem mais nem aquela, virando as costas e saindo.

TEORIA CONSPIRATÓRIA
Coube ao general Augusto Heleno, chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), que está longe de ser um especialista em relações internacionais — nem é essa sua função no governo —, sair-se com esta:

"A política de meio ambiente é totalmente injusta ao Brasil. O Brasil é um dos países que mais preserva meio ambiente no mundo. Quem tem moral para falar da preservação de meio ambiente do Brasil? Estes países que criticam? Vão procurar a sua turma".

E ainda acrescentou:
"Eu não tenho nenhuma dúvida. [Há uma] Estratégia de preservar o meio ambiente do Brasil para mais tarde explorarem. Está cheio de ONG por trás deles, ONG sabidamente a serviço de governos estrangeiros. Vocês têm que ler mais um pouco sobre isso, viu? Vocês estão muito mal informados".

Que países tenham interesses, bem, isso é um fato. Também é assim com o Brasil. Que exista uma grande conspiração internacional para tomar nossas riquezas, eis um delírio que tem potencial para nos fazer um grande mal porque isso torna a nossa política externa apenas reativa e mesquinha. Se vivo, Nelson Rodrigues diria que não cabe substituir o Complexo de Vira-Lata pelo Complexo de Pitbull. A retórica inflamada e irresponsável, mais do que propriamente os atos, já começa a evidenciar seus malefícios.

Afinal, de contas, os que compram os nossos produtos e os que vendem para nós são a nossa turma. O mundo é a nossa turma, general.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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