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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Datafolha 1: Um terço do eleitorado vai decidir futuro do governo Bolsonaro

Reinaldo Azevedo

2008-07-20T19:15:24

08/07/2019 15h24

Os, por assim dizer, macronúmeros da pesquisa Datafolha sobre a popularidade do presidente Jair Bolsonaro, realizada nos dias 4 e 5 deste mês, estão quase iguais aos colhidos em abril. Quase, mas possivelmente diferentes e discretamente negativos para o mandatário. Hoje, 33% consideram a gestão ótima ou boa; 31% a veem como regular, e iguais 33%, como ruim ou péssima. Há dois meses, esses números eram, respectivamente, 32%, 33% e 30%. Em dados frios, houve oscilação positiva de um ponto na aprovação e de dois na percepção de que o desempenho do presidente é regular. Ambas estão na margem de erro, de dois pontos percentuais para mais ou para menos. A variação da avaliação negativa se deu fora da margem: cresceu três pontos. Antes, não sabiam avaliar o desempenho de Bolsonaro 4%; agora, apenas 1%. Os que estavam indecisos ou achavam o presidente mediano podem ter migrado, nesses dois meses, mais para a avaliação negativa do que para a positiva. A pesquisa foi realizada nos dias 4 e 5 de julho e ouviu 2.860 pessoas, com mais de 16 anos, em 130 cidades. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos.

Movimentos importantes do eleitorado não são perceptíveis, no entanto, nesses números gerais. Há um dado ao qual o Planalto terá de ficar atento: chegam a 26% os brasileiros, segundo o Datafolha, que votaram em Bolsonaro e que se dizem satisfeitos com seu desempenho — entre os mais ricos, esse índice alcança 45%. Mas há 17% dos entrevistados que também sufragaram o seu nome e que hoje formam o contingente dos que o avaliam como regular, ruim ou péssimo, com destaque para as pessoas de 49 a 55 anos, que serão afetadas pela reforma da Previdência, como notam Mauro Paulino e Alessandro Janoni, diretores do Datafolha, em análise publicada no jornal.

Outro dado relevante a ser levado em conta, que se esconde na aparente estabilidade dos números: caíram de 59% para 51% os que preveem que o governo será ótimo ou bom; os que avaliam que será regular subiu de 16% para 21%; os que anteveem um governo péssimo ficaram estáveis em 24% — antes, 23%. Atenção agora para estes dados: o núcleo duro do bolsonarismo, o bolsonarista realmente otimista, encolheu: antes da posse, eram 41% dos entrevistados; em abril, 37%; chegam agora a 34% — praticamente o mesmo índice dos que dizem ser o governo ótimo ou bom. Isso pode indicar que a gestão caminha, tudo o mais constante, para ficar com seu exército de convictos: coisa de um terço do eleitorado. Algo mudará essa constância? A ver.

Em linha com o que aconteceu na eleição, Bolsonaro segue sendo muito menos popular entre as mulheres: só 29% o aprovam, ante 38% dos homens. Também são elas as mais pessimistas: 71% se dizem desanimadas com o país; entre eles, são 55%. A região Nordeste, a única em que o PT venceu a eleição, rejeita o presidente muito mais do que a média do eleitorado: 41% o veem como ruim ou péssimo (no país, são 33%). E o Sul, onde o presidente obteve seu melhor desempenho, segue aprovando-o bem acima da média nacional: 42% ante 33%. Entre os que o aprovam, estão 42% dos brancos, 31% dos pardos e 25% dos negros.

Outros números apontam para aquele terço renitentemente bolsonarista, faça chuva ou faça sol. Para 61%, o presidente fez menos do que o esperado. Notem que correspondem praticamente à soma dos que avaliam a sua gestão como ruim/péssima ou apenas regular (64%). Acham que ele está de acordo com o esperado 22% e que superou a expectativa 12%: juntos, os índices somam 34%, o que remete aos 33% que dizem ser sua gestão ótima/boa. Uma leitura obrigatória a partir desses dados: o eleitorado parece mesmo caminhar para o um terço a favor, um terço contra e um terço no meio dos extremos. Não é uma novidade na política brasileira. E é que acaba definindo o resultado da eleição. Vence quem consegue capturar a maioria dessa terceira parte. Em 1994 e 1998, FHC a conquistou quase na totalidade; em 2002, 2006 e 2010, migrou quase inteira para Lula e Dilma. Dividiu-se em 2014, com ligeira vantagem para a petista. E se juntou a Bolsonaro, na sua maioria, em 2018.

O presidente, como é notório, já andou falando em reeleição. A reforma da Previdência será aprovada ainda neste ano. Vamos ver qual e como será recebida. A depender do resultado e dessa percepção, Bolsonaro ou se apresenta como o autor do feito ou a joga nas costas do Congresso. O impacto na economia não é imediato. Por ora, a oposição ainda é mais reativa do que propositiva. Saberá articular um discurso alternativo a "isso daí", para empregar uma expressão da predileção de Bolsonaro? Também é uma questão em aberto.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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