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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Datafolha 2: Eis o brasileiro que não desiste. Ou: Patriotismo e identidade

Reinaldo Azevedo

2008-07-20T19:17:02

08/07/2019 17h02

Aquele papo de ser brasileiro e não desistir nunca pode ser pau para toda obra, né?, à direita e à esquerda. O petismo investiu bastante na metafísica do brasileiro lutador, que venceria todas as "intempéries", para lembrar palavra certa feita empregada por Lula, na sua luta contra a Dona Zelite, lembram-se? Bolsonaro agora faz o mesmo, mas aí se trata de lutar contra o petismo-esquerdismo-ecologismo-gayzismo… O brasileiro, ele mesmo, segue sendo um enigma. Ou nem tanto. Querem ver?

INFLAÇÃO
Cresceram de 45% em abril para 48% agora os que avaliam que a inflação vai aumentar, embora os índices apontem para a estabilidade. Dizem que fica como está 29%, e 22%, que vai cair. A inflação é o maior fator de apreensão dos entrevistados. No indicador, que varia de 0 a 200 (números abaixo de 100 indicam pessimismo), a expectativa em relação à inflação ficou em 59.

DESEMPREGO
Dizem que o desemprego vai aumentar 45% dos entrevistados (47% em abril); 31%, que vai diminuir (29% antes); 22%, que fica como está. O desemprego ficou em 12,3% em junho. Mas a maioria diz não temer a demissão: 58%. Só 15% veem grande risco de isso acontecer.

SITUAÇÃO DO PAÍS
Caíram de 65% em dezembro para 46% agora os que dizem que a situação econômica do país vai melhorar, e saltaram de 9% para 19% no período os que acham que vai piorar. Para 32%, fica tudo como está.

SITUAÇÃO ECONÔMICA PESSOAL
As pessoas são mais otimistas sobre si mesmas do que sobre o país: acham que a sua própria situação econômica vai melhorar 55% — eram 67% em dezembro do ano passado. Está em declínio. Passaram de 6% para 12% os que dizem que vai piorar.

CORRUPÇÃO
A corrupção vai piorar segundo a avaliação de 44%; 33% acham que vai diminuir; para 22%, nada muda nessa área.

ORGULHO
Bem, meus queridos, o patriotismo já rendeu muitos quilômetros de texto, não é? Então voltamos àquele papo de não desistir nunca. Os números acima, em princípio, não parecem indicar que o Brasil seja um país do qual seus nativos devam se orgulhar. Mas o orgulho é grande e não é de hoje.

Dizem sentir mais orgulho do que vergonha de ser brasileiro 74% dos entrevistados, contra 25% que pensam o contrário. É um índice historicamente alto.

Há mais do que orgulho: 69% dizem ser o Brasil um bom lugar para se viver; só 11% o consideram ruim/péssimo, e 20% dizem ser regular.

COMO EXPLICAR?
Tenho cá minhas dúvidas se perguntas sobre o orgulho de pertencer a uma determinada nacionalidade traduzem alguma avaliação objetiva ou que tenha implicações políticas. Poucos lugares no mundo juntam tantos fatores adversos como a Faixa de Gaza. Creio que os palestinos que lá residem vão se dizer orgulhosos — aí em razão da sua luta contra Israel. Não foi o "orgulho" do pertencimento que levou os afegãos a lutar contra a invasão soviética e depois contra os EUA?

Como acaba de observar a minha mulher, com quem conversava há pouco, "dizer-se não-orgulhoso corresponde a negar aquilo que compõe a sua própria natureza". E isso me parece preciso.

Não sei se palestinos de Gaza ou afegãos dos rincões gelados, crivados de bala, dirão que sua terra não é um bom lugar para viver. Esse orgulho do pertencimento toma o lugar da percepção objetiva. E o mesmo vale para o Brasil. Conta, ademais, a impossibilidade de fazer um juízo comparativo a partir da própria experiência.

Convenham: há mais do que 11% dos brasileiros vivendo em locais objetivamente detestáveis segundo padrões mínimos de civilidade e qualidade de vida.

Mas, mesmo entre os escombros, plasma-se uma identidade. Negá-la corresponde a negar-se.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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