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General ignora virtudes cristãs e se diz uma soma de Davi, José e Salomão

Reinaldo Azevedo

10/07/2019 16h27

Luiz Eduardo Ramos, da secretaria de governo: ele se considera uma soma de virtudes que nenhum mortal antes reivindicou (Foto: Jorge William/Agência O Globo)

A ida de Jair Bolsonaro à Câmara nesta quarta também marcou a estreia na ribalta, agora para valer, de Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo. Trata-se de um general da ativa.

Referindo-se a si mesmo, afirmou o militar:
"O presidente disse que já era hora de um ministro evangélico ir ao Supremo. Deus sabe das coisas. O presidente colocou um evangélico na articulação política".

Segundo Paulo, o apóstolo, a maior de todas as virtudes cristãs é a caridade. E a ela outras se associam, a saber: a mansidão, misericórdia, paciência, perseverança, justiça, fortaleza, magnanimidade, humildade, pureza, paz, obediência, piedade, prudência, castidade, modéstia, temor a Deus, amor e reverência à verdade.

O general disse coisas estranhas a esse universo. Ainda sobre as próprias virtudes, tonitruou o que nunca ouvi nem na boca de um judeu. E conheço muitos:
"Deus me deu a sabedoria de Salomão, a capacidade de articular e gerenciar de José do Egito e a força de um guerreiro que foi David".

Davi deve ser referência ao fato de que, em tese ao menos, foi treinado para as artes da guerra — é preciso saber quem ele considera o seu Golias. Salomão, bem…, aí o general se sente, de fato, um inspirado pela mente divinal. Não conheço seus Salmos, mas posso imaginar. Quanto a José do Egito, aí é preciso pensar… A personagem bíblica ficou famosa por ter interpretado um sonho do faraó e ter sugerido que se fizessem grandes reservas de mantimentos nos sete anos de fartura para, depois, enfrentar sete anos de seca.

A José coube administrar a distribuição e venda desses alimentos. Não entendi se, na secretara de Governo, o general está a dizer que vai distribuir mantimentos aos parlamentares na forma de emendas.

Uma coisa eu sei: alguém que se considera uma soma de Salomão, José e Davi está praticando coisa distinta da humildade e da modéstia.

Dadas as falas de Bolsonaro e de Ramos na Câmara, cheguei à conclusão de que estamos sendo governados pela soma do Velho e do Novo Testamentos.

Fosse assim, só nos restaria esperar o apocalipse.

Ainda bem que não é e que essa conversa toda não passa de um misto de vaidade, tolice e mistificação.

Até porque, que eu saiba, quando chefe do Comando Militar do Sudeste, o general Ramos treinava soldados para a guerra, não para a mansidão, a misericórdia e a paciência.

A propósito: se um dia esse governo for vencido nas urnas, o que é corriqueiro nas democracias, estaremos diante de uma derrota de Deus?

 

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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