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Reinaldo Azevedo

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A Lava Jato chamaria de destruição de provas apagar mensagens do Telegram

Reinaldo Azevedo

2011-07-20T19:17:05

11/07/2019 17h05

O jornalista Glenn Greenwald quando falou à Câmara (Foto: Pedro Ladeira/FolhaPress)

"Sergio Moro foi perguntado várias vezes no Senado, na Câmara e por muitos jornais se ele está nos investigando ou tem planos de fazer algo contra nós, e ele nunca negou, do dia em que a notícia saiu até hoje, a investigação. Ele quer que pelo menos fiquemos com medo de estarmos sendo investigados"".

A afirmação acima é do jornalista Glenn Greenwald em depoimento à Comissão de Constituição e Justiça do Senado. E vai ao ponto. É um acinte que não se diga com clareza se a investigação existe. E, se existe, qual é a razão.

Como informa a Folha, "na terça-feira (10), o procurador do Ministério Público junto ao TCU (Tribunal de Contas da União), Lucas Furtado, pediu ao órgão que determine a imediata suspensão de toda e qualquer investigação sobre Glenn Greenwald até que fiquem claras as motivações para que ela ocorra. Ele pede também que o TCU realize uma inspeção imediata no Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), já que o órgão, vinculado ao Ministério da Economia, não esclareceu se está fiscalizando o profissional."

Greenwald afirmou ainda: "O clima que o ministro da Justiça está tentando criar, acho que isso é uma ameaça a uma imprensa livre. Está tentando fazer isso de propósito para assustar a gente. Não vai funcionar, mas é uma ameaça muito grave",

E é mesmo. O Artigo 5º da Constituição garante que a publicação de matéria jornalística não depende de autorização prévia, assegurando-se o sigilo da fonte. O Artigo 220 veta qualquer tipo de censura. Se o jornalista está submetido a investigação, o que se pretende é criar embaraços à livre circulação de informações.

E que se note: ninguém está a afirmar que a polícia não pode ou não deve investigar como as informações vazaram. Mas a imprensa não tem nada com isso. Sergio Moro, Deltan Dallagnol e outros membros da força-tarefa sempre defenderam a publicação dos vazamentos de investigações e operações sigilosas executadas pela Lava Jato. Nunca se criou esse clima de terror. E não custa lembrar: os vazamentos eram ilegais; a publicação não.

Não custa lembrar mais uma vez: é pouco provável que a pessoa que reuniu o material da Vaza Jato se inclua entre aquelas que têm o dever funcional do sigilo. Quantos foram os vazamentos que fizeram a glória da operação, com óbvios desdobramentos políticos e eleitorais, que certamente foram praticados ou por procuradores ou por policiais federais? E nunca se viu a mobilização de entes de investigação do Estado para identificar os vazadores. Ao contrário: eram tratados como pessoas a serviço do bem, do belo e do justo.

Sobre o trabalho do The Intercept Brasil e da imprensa, afirmou Glenn:
"Estamos defendendo os princípios fundamentais para a democracia, [que são] a imprensa livre, o fato de que pessoas com poder político precisam [ter] transparência, e não podemos ter um processo legal sem um juiz imparcial. Esses princípios são os princípios que estão governando o jornalismo que estamos fazendo e que vamos continuar a fazer".

Sim, claro, claro! Você pode estar entre aqueles que, mesmo depois de tudo o que se viu até agora, ainda considere que Moro se comportou de maneira imparcial. Com a devida vênia, trata-se de uma mentira escandalosa. Mas, em sendo assim, um motivo a mais — além da questão legal — para criticar a publicação dos vazamentos: afinal, como diz o agora ministro, não haveria no material "nada de mais".

Ocorre que a reação destrambelhada e as ameaças só estão em curso porque o próprio Moro, os procuradores e os que decidiram ser porta-vozes justificadores de ações ilegais reconhecem a gravidade do que está sendo revelado.

O jornalista lembrou um outro dado essencial: nem Moro nem os integrantes da Lava Jato negaram de forma clara, categórica, sem ambiguidades, a veracidade do material. Compreende-se: só um áudio foi tornado público até agora, em que Dallagnol julga estar revelando em sigilo uma decisão de Luiz Fux, pedindo a seus colegas que não a passem adiante para não contrariar "o pessoal". Não vejo como o procurador possa negar que seja sua aquela voz. Eis aí: aquela gravação pode ser submetida a perícia por qualquer interessado.

Ah, bem, não custa destacar: Moro e os procuradores alegam ter apagado as conversas… Que coisa! Nas mãos da Lava Jato e segundo seus critérios, isso poderia ser chamado de "destruição de provas", com chance de render prisão preventiva sem prazo. Até rolar uma delação premiada contra alguns alvos pré-selecionados…

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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