Topo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Resultado da votação é fruto do trabalho de Maia, não do Planalto

Reinaldo Azevedo

2011-07-20T19:05:52

11/07/2019 05h52

Rodrigo Maia chora ao ouvir elogios por seu desempenho na reforma da Previdência (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

A reforma da Previdência ainda tem um bom terreno a caminhar, mas o essencial já está garantido. E agora cumpre que se façam algumas considerações a respeito do resultado até aqui, já que este traz implicações de natureza política também.

1: O grande vitorioso é Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara. No mérito e no placar. Talvez nem ele próprio contasse com os 379 votos no primeiro escrutínio — 71 a mais do que o mínimo necessário de 308. Os que se opuseram à reforma tiveram uma expressão na Câmara inferior aos votos dados à oposição na eleição: 131. Hora de voltar à prancheta.

2: As esquerdas continuam lendo mal a realidade. Não por falta de advertência. No dia 22 de fevereiro, escrevi na Folha:
"A proposta de reforma da Previdência é boa. O governo é ruim. É confortável e errado estabelecer um nexo causal entre um governo que se revela patologicamente reacionário e a sua determinação de promover a reforma, como se esta fosse a expressão econômica, material propriamente, de uma inflexão política que requer, para se efetivar, o que é lido como a espoliação dos mais pobres, a cassação de direitos, a marginalização dos oprimidos. Há uma mentira factual irrespondível nessa hipótese: a espinha dorsal do texto está na diminuição de privilégios brutais, embora os pobres também sejam alcançados pelas medidas.
Eu estaria intelectualmente mais tranquilo, com menos inquietações porque conheceria a resposta, se abraçasse essa perspectiva, que me parece ser a de alguns analistas de esquerda, ainda que peça escusas pelo reducionismo inevitável. Vislumbro uma contradição entre a reforma e o governo onde eles enxergam uma relação de congruência ou de causa e efeito: sim, reacionários, na caricatura e na vida real, estão sempre prontos a cassar direitos. Mas será ela um capítulo da luta de classes em desfavor dos mais pobres? É sustentável a tese de que é um desdobramento inevitável da vitória da extrema direita? O modelo que temos não traz em si, consolidada, a derrota do oprimido?
Reconheço, aponto e combato o caráter "direitopata" do governo de turno —já que o termo "esquerdopata" é de minha lavra, reivindico o antônimo—, mas entendo que a reforma da Previdência, escoimados eventuais exageros, é socialmente justa e economicamente "progressista", para quem gosta dessa palavra. E não apenas porque corta mais de quem tem mais, mas porque o déficit previdenciário consome recursos que podem e devem ser aplicados no combate às tais iniquidades.
Sustento que Bolsonaro promove a reforma da Previdência apesar do seu reacionarismo, não em razão dele. Há, nesse caso, um hiato na cadeia de causalidades
."

3: Jair Bolsonaro atrapalhou a reforma. Paulo Guedes, lamento dizê-lo, idem. Foi o presidente da Câmara, em parceria com o amaldiçoado "Centrão", que fabricou o resultado. Em seu discurso, Maia foi ao ponto. Destacando o protagonismo da Câmara, afirmou com acerto: "Recuperando a força da Câmara, nós estamos fortalecendo a nossa democracia." Em recado que considero explícito a Bolsonaro, disse: "Não haverá investimento privado, com reforma tributária, com reforma previdenciária, se nós não tivermos uma democracia forte". Mais: "Investidor de longo prazo não investe em país que ataca das instituições. E acho que esse é um conflito que nós temos hoje e que nós temos de superar."

4: Aqui e ali, as Górgonas do bolsonarismo buscam chamar para Bolsonaro e Paulo Guedes os méritos da aprovação da reforma. Fosse o caso de pagar para ver, cumpriria dizer: "É mesmo? Então vão lá cuidar da reforma tributária para que possamos ver no que vai dar". E eu sei no que daria: em derrota na certa.

5: A coisa toda tem lá a sua graça. Na pesquisa Datafolha, o Congresso só não mais é mais malvisto do que os partidos políticos: apenas 7% dizem confiar muito na instituição; 46% confiam um pouco, e 45% não confiam. Perde feio, por exemplo, das Forças Armadas, merecedora da plena confiança de 42%. Só 19% estão no extremo oposto. Pois será o demonizado Congresso a fazer o que tem de ser feito. Enquanto Bolsonaro brinca de Messias…

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Mais Reinaldo Azevedo