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Reinaldo Azevedo

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Bancada de potenciais mortos não cede a Bolsonaro e à bancada da bala

Reinaldo Azevedo

12/07/2019 16h26

O presidente Jair Bolsonaro conseguiu emplacar muitas respostas simples e erradas para problemas difíceis. Nem sempre, felizmente, é bem-sucedido. É o caso, por exemplo, do lobby em favor do armamento. O governo já provocou uma verdadeira tempestade legiferante sobre posse e porte de armas. Como resultado, colhe a rejeição crescente da população às suas teses exóticas. Ao menos isso.

Nada menos de 70%, segundo o Datafolha, são contra a proposta do presidente para que mais pessoas possam andar armadas. Apenas 28% são a favor. Para 1%, isso é indiferente, e 2% dizem não saber.

A rejeição é imensa entre os homens (61% a 37%), mas é colossal entre as mulheres: 78% a 20%. Parece que o presidente não conseguiu convencer as mulheres com a estupidez de que o revólver as protege mais do que a Lei Maria da Penha.

OS POBRES
Os que mais morrem a bala, os pobres, também são os que mais rejeitam o aumento das possibilidades de porte de arma: 75% a 22% entre quem ganha até dois mínimos. Entre 2 a 5, 67% a 31%; de 5 a 10, 63% a 37%, e fica em 51% a 46% entre os que ganham mais de 10. Reitere-se: fala-se aqui de porte de armas.

OS NEGROS
A rejeição é grande entre os brancos: 63% a 33%, mas é anda mais alta entre as maiores vítimas da violência, os negros: 74% a 23%. Entre os pardos, 72% a 27%. Entre os indígenas, frequentemente envolvidos em conflitos de terra, há o maior percentual contrário: 82% a 16%.

ELEIÇÃO E PARTIDOS
Ainda que na margem de erro, o porte de armas não tem maioria numérica nem entre os eleitores de Bolsonaro — 47% a 50% — e conta com a rejeição maciça entre os que votaram em Fenando Haddad: 92% a 7%. Entre os que preferiram votar em branco ou anular, 84% a 13%.

Num único grupo o apoio ao porte de arma vence com folga: os eleitores do PSL: 73% a 26%. Nas demais legendas, a proposta perde por larga margem. A maior se dá entre petistas: 89% a 11%; a segunda maior rejeição ocorre entre peemedebistas: 71% a 27%

A POSSE DE ARMA
Também a posse de armas não conta com o apoio da população. Na verdade, a rejeição é crescente: 66% se dizem contrários; apenas 31% a favor.

De julho de 2017 até agora, a repulsa à posse de armas cresceu 11 pontos percentuais: de 55% para 66%, e a aprovação caiu 12 pontos: de 43% para 31%.

RECADO
No fim das contas, a questão do porte de armas acabará sendo decidida pelo Congresso. Convém que os senhores parlamentares ouçam a população.

Afinal, ela não tem contato com o lobby das armas e não compõe a bancada da bala. Na verdade, sabe que compõe é a bancada dos mortos, especialmente quando se é pobre e negro.

Quem ganha com o lobby das armas?

Quanto ele paga?

Boas questões para o jornalismo investigativo.

 

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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