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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Tabata, o PDT, a fábula e a política brasileira. Ou: De bruxas e princesas

Reinaldo Azevedo

17/07/2019 16h58

No confronto PDT-Tabata, adivinhem quem sai com o nariz grande, deformado e cheio de bolotas (Imagem: Divulgação/Disney)

Tabata Amaral (PDT-SP) não é a única deputada que desrespeitou a orientação do partido, que fechou questão contra a reforma da Previdência. Há outros sete numa bancada de meros 27. Os oito representam 29,6% do conjunto. Divergência não é, em si, categoria moral ou técnica. Pode-se dissentir da maioria por maus motivos. Quando, no entanto, a minoria é tão expressiva numa bancada diminuta, há de se supor que algo não anda bem e é com o PDT, não exatamente com Tábata. O barulho em torno de seu nome se explica em razão da sua origem: como indivíduo e como política.

Oriunda de família pobre da periferia de São Paulo, destacou-se na escola pública, conseguiu bolsa em colégio privado, representou o Brasil em competições internacionais de desempenho intelectual, foi aceita em Harvard — outras instituições de ensino dos EUA também lhe abriram as portas — e voltou ao país graduada em ciências políticas e astrofísica. Focou seu interesse na escola pública.

Sua curta e exitosa trajetória serve para escrever fábulas ao gosto da direita e da esquerda. No primeiro caso, diriam: "Essa cascata de melhoria das condições estruturais de educação, centrada na questão da verba para a área, é conversa. O que conta é o talento individual". Tabata deve ser o monstro, apesar de seu ar angelical, dos pesadelos de um Abraham Weintraub. Ela encarna tudo o que ele gostaria de construir como teoria, mas que sua própria mediocridade não conseguiria justificar. Segundo essa visão de mundo, Tabatas podem surgir nos Jardins, área rica de São Paulo, ou na Vila Missionária, onde ela nasceu.

Na fábula esquerdista, caberia indagar quantas Tabatas estamos perdendo por ano, engolidas por um sistema incapaz de apoiar seus talentos em razão da ruindade do sistema. Nessa leitura, a sua excepcionalidade é evidência do trabalho que há por ser feito. E, até onde se entende, o seu viés ideológico está mais adequado a essa segunda metafísica do que à primeira. Ela podia ter lá suas ingenuidades sobre a política brasileira, mas tem formação intelectual requintada o bastante para saber onde estava se metendo.

Digamos que o perfil esboçado até aqui já fazia prever um choque. Tabata certamente se identifica com causas coletivas, mas ninguém avança tanto em tão pouco tempo, driblando adversidades que não são pequenas, se não tiver a necessária dose de bom egocentrismo para olhar para si mesmo e para a frente. Talvez ela pudesse apelar à matemática, de que tem excelente domínio, para explicar ao PDT a necessidade da reforma da Previdência…

Mas há outro elemento que está a fazer ruído aí. Tabata pertence ao movimento "Acredito", um de muitos surgidos à esteira da destruição, por um caminho que não considero virtuoso, do establishment político provocado pela Lava Jato e por seu modo de combater a corrupção: destruindo empresas, instituições e ordem legal.

A consequência nefasta desse processo é a transformação do bolsonarismo numa espécie de movimento identitário. Todos os problemas que demandarem políticas públicas, que apelem ao senso de coletividade e que requeiram engajamento do Estado seriam invenções de esquerdistas dispostos a sufocar a liberdade individual. A resposta é simples: cada um cuide de si, e o resto é invenção de comunistas. Cadeirinha para bebê, preservação do meio ambiente ou restrição à posse de armas seriam interferências inaceitáveis do Estado, infiltrado por comunistas, na vida dos cidadãos. A política é o lugar da trapaça. Menos, claro, aquela feita pelo "Mito" e seus acólitos, que agiriam, então, para pôr fim a essas amarras.

Mas há consequências não virulentas, embora também problemáticas. Aí se inserem o "Acredito" e congêneres. Uma racionalidade seria criada fora da política para, de algum modo, gerenciá-la e atuar como sua consciência crítica. Seria a vigilância do bem, em oposição àquela exercida pelas milícias bolsonaristas. Que se note: o "Acredito" e seus similares nada mais são do que um modo de driblar a estúpida proibição do financiamento privado de campanha — outro desdobramento nefasto da Lava Jato. Convenham: a diferença entre a doação de uma empresa a um candidato e a doação de um empresário a um movimento que vai sustentar postulantes a cargos públicos, por intermédio de uma "bolsa", é só de narrativa. Estamos falando da mesma substância. Ocorre que se trata, sim, de um drible na lei — numa lei ruim, mas drible ainda assim.

Isso explica por que Ciro Gomes chama o "Acredito" de "partido clandestino". É exagero retórico. Não há clandestinidade nenhuma. Ele sabia das vinculações de Tabata com o grupo, e este, por sua vez, foi objeto de várias reportagens. Eu mesmo escrevi aqui que tais procedimentos consistiam numa ilegalidade consentida, mas que assumiam a fachada de uma nova cidadania.

Não sei se o voto de Tabata contra a orientação do partido obedeceu a uma demanda do "Acredito". Duvido. Ignoro se entre os oito divergentes há outras pessoas ligadas ao tal movimento. A deputada virou alvo principal na reação do PDT porque, reitere-se, já entrou na vida partidária como uma personagem — ainda que de história realmente venturosa — e porque sua ligação com aquele grupo força um debate necessário: é possível haver uma vida partidária gerenciada por entes externos às legendas, que as utilizem apenas como barrigas de aluguel?

Já temos as chamadas bancadas temáticas, que só fazem sentido, dado o modo como existem no Brasil, porque o lobby não é legalizado. Assistimos, por exemplo, a coisas que chegam a ser desavergonhadas, como a tal da "Bancada da Bala". E a vergonha não está em acreditar no que acreditam — embora eu repudie aquela crença. A vergonha está em não ficar claro quem os financia: a indústria de armas. "É possível existir um lobby do bem?" Sim, claro!, destacando-se que sempre será "do mal" para alguém.

O quiproquó de que Tabata virou personagem principal decorre, no fim das contas, de algumas hipocrisias a que temos de pôr fim. E a resposta passa:
– pelo reconhecimento de que partidos não podem ser gerenciados por entes de razão que lhe são externos; inexiste controle externo da vida partidária, além daquele que impõe a legislação eleitoral;
– pelo fim da ridícula proibição de que empresas façam doação a candidatos, segundo regras claras;
– pela legalização do lobby, de modo que a sociedade saiba quem quer o quê e quem está financiando quem.

E há, claro, aspectos de natureza subjetiva, vale dizer, que dizem respeito à moralidade dos políticos e dos dirigentes partidários. O PDT sempre soube que Tabata não era um membro genuíno do partido, não é mesmo? Sua figura conferia à legenda um frescor, uma novidade e um apelo que, vamos ser claros, não coincide com o que se conhece da legenda. Não fosse por esses elementos contrastantes, o interesse por ela seria menor.

À parte os dados de fundo, que explicam o choque, cumpre notar: as legendas do espectro, serei genérico, conservador também contam com dissidências. Ninguém fala em expulsar ninguém. O expurgo purificador continua a assombrar as esquerdas. No poder, convenham, nem sempre se comportam como freiras dos pés descalços.

Encerro parafraseando o poeta Ascenso Ferreira. "Diga-me cá, PDT: isso tudo pra quê?" E não há como o partido não me responder: "Pra nada".

Ao fim, estará menor do que quando decidiu terçar armas com uma garota de 25 anos, em seu primeiro mandato. A menina da Vila Missionária, que se formou em ciência política e astrofísica em Harvard, pode não ser a Branca de Neve. Mas é certo que não há chance de sair dessa história como bruxa. Já dá para saber quem pode aparecer, nessa fábula, com o nariz grande, deformado e cheio de bolotas.

 

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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