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Reinaldo Azevedo

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Lógica bolsonariana: se seu filho merece filé-mignon, dê-lhe uma embaixada

Reinaldo Azevedo

19/07/2019 07h30

Hambúrguer e filé-mignon, as novas categorias da política externa brasileira

Na sua já tradicional "live" das quintas, o presidente Jair Bolsonaro deu o mais irrespondível de todos os argumentos para indicar o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a embaixada do Brasil nos EUA. E o pensamento saiu vazado daquele modo muito característico, aos pequenos solavancos. Um gramático versado em política deveria estudar a sua fala. O presidente usa muito pouco as orações subordinadas, por exemplo, que servem para expressão de juízos mais complexos, que requeiram um encadeamento de ideias e um pensamento com alguma extensão e profundidade.

Bolsonaro é o rei das orações coordenadas. Nem sempre, elas guardam relação entre si. Recorre, com frequência, ao que chamo "pensamento cebola". As camadas vão se justapondo, sem aderência. É bem verdade que a cebola forma um todo harmônico, o que não é caso da fala do dito "Mito".

O homem padece também do chamado "cogito Interruptus". Instado a falar sobre um determinado tema ou tendo ele mesmo tomado a iniciativa de fazê-lo, parece que várias ideias o assaltam ao mesmo tempo, e ele acaba por não concluir nenhuma. Vista a coisa com mais cuidado, trata-se, na verdade, da falta do que dizer. Então ele vai preenchendo o vazio com anacolutos, com termos que ficam soltos no discurso, sem função. Seus admiradores tomam o que parece ser uma evidência de desordem mental como manifestação de sinceridade.

Trata-se de óbvio e inequívoco despreparo intelectual. Mas isso não quer dizer que seja burro. É inteligente o bastante para saber usar esse tumulto a seu favor. Parece ser estimulado por sua assessoria a dizer o que lhe dá na telha — e, de resto, tudo indica que resultaria inútil qualquer esforço para adequá-lo a uma retórica mais formal. Não foi diferente nesta quinta.

Referindo-se à indicação de Eduardo para a embaixada do Brasil nos EUA, saiu-se com esta maravilha:

"Lógico que é filho meu. Pretendo beneficiar um filho meu, sim. Pretendo, está certo. Se puder dar um filé-mignon ao meu filho, eu dou. Mas não tem nada a ver com filé-mignon essa história aí. É aprofundar um relacionamento com um país que é a maior potência econômica e militar do mundo".

Bolsonaro evidencia que nada há de ilegítimo, aos menos aos seus olhos, na disposição para o nepotismo. A quem suspeitar que ele possa estar querendo beneficiar o filho porque filho, ele deixa claro: é isso mesmo! E aí se sai com o que lhe parece uma verdade universal, aquilo que, então, qualquer pai faria: "Quem, podendo dar um filé-mignon à sua cria vai declinar de tal mimo?" Nessa hora, é como se indagasse às pessoas que o acompanham: "Vocês não fariam o mesmo?"

E, claro, para ele é irrelevante que o tal filé seja, na verdade, uma questão pública. Notem que Bolsonaro está tentando convencer os brasileiros de que a indicação de Eduardo só por ser seu filho já estaria justificada. Como se tivesse renunciado ao direito natural de nomear o seu rebento, ele tenta encontrar uma motivação objetiva para fazer essa escolha. Aí, então, é preciso negar a natureza do presente: "Mas não tem nada a ver com filé-mignon essa história aí. É aprofundar um relacionamento com um país que é a maior potência econômica e militar do mundo".

Como se trataria, diz ele, de aprofundar a relação com os EUA, então resta demonstrado não se tratar de um file mignon. Entenderam? Parece que Bolsonaro quis dizer o seguinte: "A única forma de o Brasil estar bem representando nos EUA é eu indicar alguém a quem eu pudesse dar um filé-mignon: meu filho". Porque este tem a prerrogativa de ganhar o filé do pai, então leva junto a embaixada.

E depois há aquelas pessoas de má vontade a dizer que as coisas que Bolsonaro diz não fazem sentido…

A questão, por óbvio, desde sempre, nem é saber se Eduardo é ou não capacitado para o cargo, mas se não há outras pessoas mais capacitadas do que ele, com mais trato em questões internacionais e mais vivência para enfrentar alguns desafios da geopolítica. A resposta é obviamente conhecida: é claro que sim.

Ocorre que a nenhuma delas Bolsonaro daria um filé-mignon. Logo, por que as indicaria para a embaixada? Entenderam?

Da física do hambúrguer à metafísica do filé-mignon.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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