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Reinaldo Azevedo

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Ataque ao Inpe se explica: é a política do ódio aplicada ao meio ambiente

Reinaldo Azevedo

23/07/2019 07h16

Jair Bolsonaro produziu "fake news" e a espalhou para suas milícias nas redes sociais para tentar justificar o ataque insano que fez ao Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), órgão ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, e a seu presidente, Ricardo Galvão. O "Mito" lacrador da Internet deu a entender que Galvão foi insubordinado, recorreu a expediente de exceção e acabou divulgando dados sobre desmatamento à revelia do governo. Isso não aconteceu porque não é assim que as coisas funcionam. De resto, se os dados apontassem uma diminuição da devastação, é certo que o inquilino do Planalto não estaria reclamando.

Ocorre que as evidências apontadas pelo Inpe são preocupantes e, de fato, criam embaraços ao país no exterior, especialmente no momento em que as negociações entre o Mercosul e a União Europeia avançam. Mas notem que coisa curiosa: a reação de Bolsonaro chega com atraso e só veio a público porque, por óbvio, a imprensa internacional se interessou pelo assunto.

Os dados foram revelados no dia 3 de julho e apontam que "o desmatamento na Amazônia Legal brasileira atingiu 920,4 km² em junho, um aumento de 88% em comparação com o mesmo mês no ano passado."

Vamos ver. Existe uma rotina para a publicação das informações. E, de fato, ela não mudou. Segundo informa Galvão ao Estadão, "não existe isso de divulgarmos os dados". O diretor afirma que eles são apresentados de modo transparente no site Terrabrasilis, do Inpe, depois que são encaminhados para o Ibama. "Mandamos os dados do Deter (sistema de detecção em tempo real) para o Ibama. Os dados do Prodes (sistema que aponta a taxa anual, e oficial, de desmatamento) são sempre mandadas com antecedência ao ministério antes de divulgação. Os dados de junho mesmo foram mandados uma semana antes. Estranho dizerem que não avisamos", afirmou Galvão. "Além disso, temos de cumprir a Lei de Acesso à Informação. E é ingenuidade supor que se pode esconder esses dados. Os satélites estão todos em cima. Não tem como embargar", afirmou Galvão.

Vejam que coisa. No dia 4 de julho, o "Jornal Nacional" divulgou os números e ouviu o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. E o que disse este impressionante senhor? Isto: "Se houve uma questão numérica de contenção do desmatamento que depois voltou a crescer, também houve um prejuízo que acaba gerando resultados negativos mais à frente de um empobrecimento. A pergunta é: de que forma nós podemos conter o desmatamento ilegal, mas trazer essas pessoas para um padrão de atividade econômica para uma qualidade de vida?"

A fala é confusa, mas se pode notar um flerte mais do que explícito com o desmatamento, considerando-o uma espécie de fatalidade. Apesar do raciocínio torto, dá para perceber que o ministro considera que a preservação leva ao empobrecimento, e que se desmata como forma de fugir da pobreza. Enquanto for esse o norte conceitual da pasta, teremos um Ministério da Devastação Necessária, não um Ministério do Meio Ambiente. Em sete meses de gestão, essa é a área em que o governo Bolsonaro consegue produzir a maior quantidade de insultos à inteligência.

Este é um governo que vitupera contra o Ibama; que critica a área de preservação de Angra dos Reis, onde o presidente quer criar uma nova Cancún; que cisma com a taxa de preservação que se cobra de turistas em Fernando de Noronha; que manda que europeus procurem a sua turma quando o assunto é preservação; que inventa que existe um plano para a internacionalização da Amazônia; que vê o país cercado por ONGs ambientalistas sob o comando de interesses ocultos; que se reúne com madeireiros, tratando-os como vítimas do preservacionismo; que flerta abertamente com garimpo na suposta defesa dos pobres…

Tudo isso se dilui, com o perdão da expressão, no viés ideológico de extrema-direita e no berreiro. Mas tem consequências, como se vê. O que é que irrita no caso do Inpe? Os dados são objetivos, técnicos, captados por satélite.

Bolsonaro apela à hierarquia de quartel — coisa que o governo não é — e diz que quer saber dos dados antes de sua divulgação. Para a reputação do Brasil lá fora, preocupação por ele vocalizada, saber antes ou depois, convenham, é irrelevante. O que precisa é conter o desmatamento ilegal — até porque ainda existe espaço para o desmate legal. E isso se consegue é com uma mudança de mentalidade.

A tendência, como desdobramento do discurso irresponsável, é que o desmatamento aumente, sim, e que isso acabe criando problemas sérios para o país. A razão é simples: temos um governo que faz questão de deixar claro todos os dias a sua relação de ódio com o meio ambiente e que considera a preservação inimiga do desenvolvimento e adversária da pobreza.

Para uma mentalidade assim, só há uma saída: extinguir o Inpe e mandar que os demais países do mundo busquem a sua turma.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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