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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

A campanha acabou, Bolsonaro! Você tem de entender que ganhou, porra!!!

Reinaldo Azevedo

06/08/2019 07h19

Johnny Bravo: alto, louro, bombadão, metido a galã e meio abobalhado. Em que ele lembra Bolsonaro, segundo o próprio?

"A campanha acabou para a imprensa. Eu ganhei! A imprensa tem que entender que eu, Johnny Bravo, Jair Bolsonaro, ganhou, porra! Ganhou, porra! Vamos entender isso. Vamos trabalhar junto pelo Brasil. O trabalho de vocês é excelente. Desde que seja bem-feito. É muito importante para o futuro do Brasil".

Esse é Jair Bolsonaro, em Sobradinho, na Bahia, referindo-se ao trabalho da imprensa. Deu essa resposta depois de ouvir indagações sobre a farra nepotista que ele e filhos praticaram em cargos legislativos.

Fosse a imprensa um ente, um indivíduo ou uma unidade que pudesse dar uma resposta, seria o caso de dizer:
"A campanha acabou, Bolsonaro! Você ganhou! Você tem que entender que você, o rei do baixo clero, Jair Bolsonaro, ganhou, porra! Entenda isso. Trabalhe pelo bem do Brasil que eu, imprensa, vou fazer a mesma coisa, mas não junto, porque isso é coisa de assessoria. O seu trabalho poderia ser excelente se fosse bem-feito. Um presidente é sempre muito importante para o futuro do Brasil".

A fala do presidente, obviamente, é um despropósito. A imprensa só se interessa por aquilo que ele diz justamente porque sabe que ele ganhou e, ainda que pareça incrível, dada a sua trajetória, é, sim, o presidente legítimo do Brasil. Mas essa legitimidade, é bom que se lembre, não é inextinguível. Um presidente pode se deslegitimar no curso do mandato. Dois antecessores seus já caíram: Fernando Collor e Dilma Rousseff.

A maior de todas as fraudes que o bolsonarismo alimenta contra a imprensa, sob o aplauso de paranoicos, é a de que esta preferiria um outro candidato — no caso, Fernando Haddad, do PT. Trata-se de uma mentira estúpida. A grande parceira da Lava Jato, que fez desmoronar o castelo petista — e, junto com ele, é verdade, a política institucional —, foi justamente a imprensa. E, nesse sentido, o jornalismo acabou se transformando num aliado objetivo do bolsonarismo. Não que tenha procurado esse resultado. Mas a realidade está aí.

Quem acompanhou de perto a história sabe que o movimento em favor do impeachment vivia uma espécie de refluxo quando Sérgio Moro divulgou, contra a lei, a gravação também ilegal da conversa entre Dilma e Lula. Diálogos revelados pelo site The Intercept Brasil evidenciam que se tratou de uma estratégia deliberada de enfrentamento do Supremo. Não houve, com raras exceções, nem sombra de crítica a Moro — hoje ministro da Justiça de Bolsonaro.

Sim, é verdade. Jornalistas profissionais, a despeito de seus equívocos — e todos estamos sujeitos a eles —, costumam ter um pacto com a civilidade e com os direitos individuais e coletivos. Isso nasce de um fundamento garantido pela própria Constituição: a liberdade de imprensa. E Bolsonaro não é exatamente um defensor, para ficar num documento bastante genérico, da "Declaração Universal dos Direitos do Homem".

Havia certo temor de que, se eleito e mesmo na condição de presidente, Bolsonaro defendesse a ditadura e a tortura; incentivasse a população a se armar; ignorasse a barbárie nos presídios e até fizesse troça dos mortos; atacasse as políticas ambientais; incentivasse a invasão de terras indígenas; desrespeitasse minorias; tratasse adversários políticos como inimigos e enxergasse comunistas até debaixo da cama…

Afinal, era essa a sua retórica quando deputado, não é mesmo? Bem, Bolsonaro já é presidente, porra! Bolsonaro ganhou, porra! E ele continua a repetir as mesmas bobagens que dizia quando era um deputado do baixo clero, porra!

Mas a imprensa o persegue? Respondo: o governo Bolsonaro não sobreviveria à derrota da reforma da Previdência. A economia entraria em parafuso. Como ele já cometeu crimes de responsabilidade em penca, não seria difícil impichá-lo. E, no entanto, essa imprensa que ele adora odiar é uma das responsáveis — na verdade, a grande responsável — por tornar palatáveis as mudanças. Convenceu amplas camadas da sociedade de que elas são necessárias. Não por apreço ao presidente, mas por apreço aos fatos. Excepcionalmente, os fatos acabam sendo úteis a um governo viciado em fake news.

E, claro, o presidente não sabe quem é Johnny Bravo, a personagem de desenho animado metido a galã, com um topete louro, todo bombadão, sempre de óculos escuros, que se considera irresistível às mulheres. Nada lembra Bolsonaro. Sim, Johnny Bravo é meio abobalhado. Mas Bolsonaro não deve tê-lo evocado por isso…

Autocrítica não é o seu forte.

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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