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Reinaldo Azevedo

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Moro vira assombração e escada de piada de troca-troca. E sempre truculento

Reinaldo Azevedo

09/08/2019 07h01

Sergio Moro virou uma assombração. Consta que algumas pesquisas encomendadas por empresas e partidos apontam que sua popularidade ainda é maior do que a de Jair Bolsonaro, mas isso também já não quer dizer muita coisa. Aquele que imaginou que seria o Cardeal Richelieu de um presidente meio destrambelhado, apresentando-se como uma espécie de fiador da normalidade, ainda que truculenta, transformou-se num Bolsonaro-dependente.

O juiz se escondia no sucesso de público e de crítica da Lava Jato, a despeito dos desastres que causou. O político Moro se mostra autoritário, populista, desastrado e oportunista. Assumiu com a pose do superxerife da moralidade nacional e, pouco mais de sete meses depois, nós o vemos constrangido, como alvo de uma das piadinhas eróticas do chefe. Ao revezar com o ministro Ricardo Salles a cadeira na live desta quinta, Bolsonaro lhe perguntou, com o desassombro de quem tem a certeza de que inexiste diferença entre governar e fazer piada de vestiário: "Vai fazer troca-troca"?

O ministro está desesperado. Na ânsia de colar-se a Bolsonaro, pediu nesta quinta à Procuradoria-Geral da República que abra uma investigação contra Felipe Santa Cruz, presidente da OAB. Motivo? Santa Cruz afirmou em entrevista à Folha que Moro "usa o cargo, aniquila a independência da Polícia Federal e ainda banca o chefe de quadrilha ao dizer que sabe das conversas de autoridades que não são investigadas".

O presidente da OAB se referia à decisão destrambelhada de Moro que, violando o sigilo do inquérito que apurava a atuação de hackers, saiu disparando telefonemas para alertar autoridades que teriam sido hackeadas. De quebra, prometeu que as provas seriam destruídas.

Santa Cruz, que é advogado, nem precisa contratar um penalista para defendê-lo. Basta nomear o Dicionário Houaiss. "Bancar", nessa acepção, quer dizer "fazer-se de; fazer as vezes ou o papel de; fingir(-se) de". Afirmar que alguém "banca o chefe de quadrilha" é coisa distinta de acusar alguém de ser chefe de quadrilha. A questão atinge ao Artigo 5º da Constituição, à liberdade de expressão, não ao Código Penal. Moro, sim, dá sinais de que pode ter cometido crime ao evidenciar que tinha informações de uma investigação sigilosa.

O ministro tenta pegar carona no ódio que Bolsonaro andou secretando contra Santa Cruz. Toma a decisão de processá-lo no dia em que seu chefe recebe a viúva do coronel Brilhante Ustra. E não como gesto de apreço àquela senhora, o que poderia ser coisa da esfera privada. Não! Mais uma vez, o presidente do Brasil exalta a memória de um notório torturador e lhe dispensa tratamento de herói nacional.

O encontro acontece à esteira das indignidades que Bolsonaro andou disparando contra o pai de Felipe: Fernando Santa Cruz foi sequestrado, torturado e morto pela ditadura em 1974, quando o agora presidente da OAB tinha menos de dois anos. O corpo nunca foi encontrado e, segundo um ex-delegado do DOPS, foi incinerado numa usina. Felipe recorreu ao Supremo para que o presidente explique as declarações que deu. Na terça-feira, num ato claro de retaliação, a Petrobras rompeu unilateralmente um contrato que mantinha com o seu escritório. Ou por outra: Bolsonaro trata a Petrobras como propriedade particular.

Entenderam o enredo do qual Moro fez questão de participar como coadjuvante? Na condição de ministro da Justiça, divide uma "live" com seu chefe no dia em que este volta a exaltar um torturador e anuncia uma ação contra o filho de alguém que morreu sob tortura, tratado pelo presidente com as tintas do deboche. Estamos, antes de mais nada, diante da exposição de um caráter.

Na tal "live", diga-se, Moro chama para si e para o governo a queda na taxa nacional de homicídios, que é uma herança da gestão Temer — ou que ele diga que ação efetiva tomou que contribuísse para isso. E fez a defesa de outros aspectos de seu pacote anticrime que resultarão — e tratarei disso em outro post — em ainda mais violência e no aumento da tensão nos presídios, que exibem ao mundo suas cabeças cortadas. Até Bolsonaro já lhe disse que, por ora, não se trata de uma prioridade.

E pensar que este senhor era tratado, até outro dia, como um herói nacional. De suposto grande fiador do governo, restou-lhe o papel de escada do humorista truculento: "Vai fazer troca-troca?"

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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