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Reinaldo Azevedo

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Em dois eventos, Bolsonaro ajuda a escancarar a suspeição de Moro

Reinaldo Azevedo

12/08/2019 07h30

Não fossem as causas de nulidade já conhecidas dos processos contra Lula que tramitaram na 13ª Vara Federal de Curitiba, há eventos posteriores às condenações que escancaram a suspeição do então juiz Sergio Moro, hoje ministro Sergio Moro.

Que se note: elas estavam dadas antes ainda da divulgação dos diálogos recebidos pelo site The Intercept Brasil. A publicação das conversas entre os procuradores e de Deltan Dallagnol com Moro comprovaram à farta a rotina de ilegalidades e de deboche da ordem legal.

Os maiores juristas do mundo se dão conta dos descalabros e acusam: o sistema judicial brasileiro caiu em descrédito. Isso tem um custo também econômico, creiam.

Pois bem. Agora na condição de ministro de Jair Bolsonaro, Moro se expõe à, digamos, falta de noção de seu chefe.

Na quinta à noite, Bolsonaro se referiu a Lula de maneira irônica, debochada, durante aquela a sua 'live", na presença de seu ministro da Justiça. E este colaborou com a depredação da reputação alheia com algumas palavras soltas.

Não se tratava de uma manifestação sobre direito. O que se fazia ali era política. E quem estava presente era o político Moro, que tirou Lula da disputa com Bolsonaro na condição de juiz Moro. É claro que coisas assim assombram o mundo. Vejam.

No dia seguinte, na sexta, ao dar ao um autógrafo, Bolsonaro usou Moro, mais uma vez, como escada para atacar alguém condenado pelo ex-juiz, cuja sentença ainda não transitou em julgado. Para todos os efeitos, segundo o Inciso LVII do Artigo 5º da Constituição, Lula ainda não é um culpado.

Eu me pergunto e pergunto aos ministros do Supremo: "Esse Moro que se vê nos dois eventos foi, em algum momento, um juiz isento?" Se não foi, como sustentar o conjunto da obra?

Os ministros do Supremo poderiam, vá lá, me responder algo assim: "Ora, Reinaldo, apesar disso, as provas estão explicitadas na sentença".

Ocorre que eles não teriam como dizer nem em que página. Porque elas não estão lá.

E, então, alguém poderia indagar: "Mas como é que a sentença foi referendada pelo TRF-4 e pelo STJ?

É uma pergunta que tem de ser feito àqueles bravos juízes. Também a eles indago? Em quais páginas estão listadas as provas?

De toda sorte, os vídeos acima são uma evidência eloquente do que se deu e do que se dá com o devido processo legal no Brasil.

E isso tem de ter fim.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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