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Reinaldo Azevedo

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Oposição argentina tem 2 fortes cabos eleitorais: governo ruim e Bolsonaro

Reinaldo Azevedo

13/08/2019 07h01

Bolsonaro recebe Macri para almoço no Palácio do Itamaraty. Esse dedo vale como uma arma contra a candidatura do outro… (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A oposição venceu as eleições primárias deste domingo na Argentina por 47% a 32%. Se o resultado se repetir no dia 27 de outubro, a dupla Alberto Fernandez-Cristina Kirchner se elege no primeiro turno — bastam 45% dos votos para tanto. O dólar teve alta de 17% nesta segunda, e a Bolsa caiu nada menos de 37,35%. Como consequência, o Banco Central elevou a taxa de juros em 10 pontos percentuais, a estratosféricos 74%, o que só vai alimentar o ciclo de dificuldades enfrentado pelo presidente Mauricio Macri.

É claro que uma virada não é impossível, mas é dada por analistas como improvável. E o que fez o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro?

Meteu-se, mais uma vez, na disputa do país vizinho, um dos principais parceiros comerciais do Brasil e segunda economia do Mercosul, que acaba de estabelecer as bases de um acordo com a União Europeia.

Em Pelotas, no Rio Grande do Sul, Bolsonaro abriu a mala de ferramentas impróprias. Disse:
"Não esqueçam que, mais ao Sul, na Argentina, o que aconteceu nas eleições de ontem. A turma da Cristina Kirchner, que é a mesma de Dilma Rousseff, que é a mesma de Hugo Chávez, de Fidel Castro, deram sinal de vida aqui. Povo gaúcho, se essa esquerdalha voltar aqui na Argentina, nós poderemos ter no Rio Grande do Sul um novo estado de Roraima. Vocês [gaúchos] podem correr o risco de, ao ter uma catástrofe econômica lá, como teve na Venezuela, ter uma invasão da Argentina aqui. Não queremos isso para nossos irmãos".

Também fez considerações sobre o Mercosul:
"A gente vai ver como é que fica a situação. Ninguém quer… Eu romper unilateralmente, mas ele mesmo, o candidato cujo partido ganhou as prévias, falou que quer rever o Mercosul. Esse é o primeiro sinalizador de que vai ser uma situação bastante conflituosa".

E resolveu apelar ao cenário interno:
"Se eu não me engano, ele (Fernández) esteve em Curitiba visitando o Lula também. Quer dizer, está dando sinalizações mais do que precisas de que não quer se alinhar com aquilo que, no momento, nos alinhamos com Macri, com Marito (Mario Abdo Benítez, presidente do Paraguai) e com o presidente do Uruguai".

Que povo vê com simpatia uma ingerência dessa ordem, com tons indiscretamente xenófobos, de um governante estrangeiro em seu país?

O candidato da oposição não se fez de rogado. Numa entrevista de televisão, respondeu:
"[Bolsonaro] é um racista, um misógino e um violento que é a favor da tortura". E provocou: "Que alguém assim fale mal de mim é algo que eu celebro". Disse mais: "Lula deveria estar livre para poder concorrer a uma eleição com ele". Sobre Sergio Moro, indagou: "Como posso acreditar na sentença de um juiz que depois vira ministro do candidato que era rival de Lula?".

O ataque de Bolsonaro a um dos grupos que disputam a eleição na Argentina, principal destino das exportações industriais do Brasil, é um despropósito. Em 2017, tivemos um saldo positivo na balança comercial bilateral de US$ 8,184 bilhões, o melhor da história. No ano passado, em razão da crise, esse valor se reduziu à metade: US$ 3,9 bilhões. E a coisa está piorando.

De janeiro a julho do ano passado, o superávit brasileiro foi de US$ 3,88 bilhões; neste ano, há um déficit de US$ 226,73 milhões. As exportações despencaram: de US$ 9,98 bilhões no mesmo período de 2018 para US$ 5,99 bilhões. As importações tiveram até uma ligeira alta: de US$ 6,1 bilhões para US$ 6,21 bilhões. À parte o viés ideológico, Bolsonaro não tem como explicar tanta admiração por Macri.

O presidente brasileiro se meteu pela primeira vez na eleição da Argentina no dia 2 maio, depois do esforço malsucedido para derrubar Nicolás Maduro na Venezuela. Numa de suas "lives", afirmou:
"A questão aqui da Argentina. Ninguém aqui vai se envolver em questões fora do país. Mas, eu, aqui como cidadão, todos aqui como cidadãos têm uma preocupação de que volte o governo anterior do Macri (sic). A presidente anterior [Cristina Kirchner] era ligada com Dilma, com Lula, com a Venezuela de Maduro e de Chávez, com Cuba. Se isso voltar, com toda a certeza, a Argentina vai entrar numa situação semelhante à da Venezuela (…). Eu espero que os nossos irmãos argentinos se conscientizem disso".

Obviamente, eu o censurei aqui e no programa "O É da Coisa". Afirmei que sua fala seria usada como propaganda eleitoral pela chapa integrada por Cristina Kirchner. Batata!

Hoje, a oposição a Macri conta com dois cabos eleitorais importantes: o primeiro é a ruindade do governo. O segundo é Bolsonaro.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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