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Reinaldo Azevedo

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Soares, candidato à PGR, ataca Lava Jato. Então eu o apoio? CLARO QUE NÃO!

Reinaldo Azevedo

20/08/2019 07h14

Antônio Carlos Simões Martins Soares, pré-candidato à PGR. Ele critica a Lava Jato, sim. E daí? Isso não basta! (Foto: Divulgação/MPF)

Ainda no paleolítico, há algumas centenas de anos ideológicos (acabo de inventar a categoria…), quando o PT tentava se estabelecer como o imperativo categórico da política — e eu dei muitas pauladas no partido —, escrevi "nem tudo o que não é PT me serve". Nota à margem: muita gente que puxava o saco do petismo superpoderoso e que até ganhou muito dinheiro naquele período é hoje antipetista radical. Fazer o quê? Tio Rei tem vocação para a contramão…  Sigamos. Digo agora: "Nem tudo o que não é Lava Jato me serve".

Sim, a força-tarefa, como está constituída, resta mais evidente a cada dia, tornou-se um mal para o país, muito especialmente para o necessário combate à corrupção. Sob esse pretexto, ela estava — está ainda porque sua jornada não chegou ao fim — destruindo o estado de direito. Seu feito mais notável até agora é… Jair Bolsonaro. Ou moristas e bolsonaristas não são aliados de primeira hora? Já começaram a se estranhar, mas esse casamento ainda vai longe.

Por que digo agora "nem tudo o que não é Lava Jato me serve"? Porque o subprocurador-geral Antônio Carlos Simões Martins Soares, o preferido, no momento, de Jair Bolsonaro para a Procuradoria Geral da República, resolveu criticar o comportamento da força-tarefa. Não que ela não mereça. Mas é preciso ver de onde parte a crítica e com que propósito. Afirmou ele:
"Eu sou um homem ético, sempre fui muito combativo, porém nunca usei métodos ilícitos, como é comum. Agora vocês estão descobrindo que lá em Curitiba foram utilizados recursos que não podem ser considerados como lícitos. Isso eu não faço. Esse é um ponto que me difere do que está por aí".

Então basta para que ele se torne o meu favorito à PGR? Não mesmo! Quando menos, o doutor tem duas coisas mal explicadas em seu passado que já o desqualificam, vênia máxima, para o cargo:
– teve de voltar ao MPF em 2015, depois de ter se aposentado em 2010, porque o TCU descobriu que os papeis que usou para conseguir o benefício incluíam um período em que atuou como advogado, sem o recolhimento das obrigações previdenciárias;
– porque acusado, quando procurador em primeira instância, de falsificar um documento; o caso acabou arquivado em razão da prescrição, mas segue mal explicado.

Como ele se candidata a chefe do órgão que é o titular da ação penal, entre outras atribuições, isso basta para inviabilizá-lo. Ponto final. Mas Soares, como se nota, parece ter predileção por caminhos heterodoxos. Embora negue, virou o candidato de ninguém menos do que o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), o filho mais enrolado do presidente, que faz, sim, entre seus pares, campanha aberta em favor de seu nome. Convenham: a atitude é de uma ousadia — a má ousadia — sem limites.

O doutor também gosta de exibir musculatura que poderia fazê-lo influente ou notável no seu prédio, junto à vizinhança, junto à parentada, mas nunca para pleitear a PGR:
"Quem é que está me apoiando no Supremo? O ministro [Luiz] Fux, que é carioca. O ministro [Dias] Toffoli já vai, provavelmente hoje [nesta segunda], estamos aguardando que ele externe essa adesão, esse apoio. E outros que não vou citar porque não me autorizaram. Nossa prioridade foi conseguir apoio do atual [presidente do STF] e do futuro [Fux]". No STJ eu tenho apoio do ministro Luis Felipe Salomão, o pessoal do Rio está todo comigo. O ministro Marco Aurélio Bellizze, e outros também que eu não vou citar porque não me autorizaram. Esses autorizaram porque eles estão realmente na campanha."

Em campanha?

Sim, é bom que um procurador-geral da República não seja um estranho ao STF. Mas, ora vejam!, a natureza do Ministério Público é a independência. Sendo verdadeiros todos esses apoios, Soares se orgulha da sua dependência. E ele não busca se escorar apenas aí. Também faz questão de exibir seu trânsito entre os militares:
"Eu fiz Escola Superior de Guerra em 2005. Lá conheci muitos militares, inclusive eu tenho alguns ministros do STM [Superior Tribunal Militar] que são meus amigos. Um deles é o Olympio Pereira [da Silva] Junior, que foi quem me iniciou nesse convite para que eu pudesse contribuir para melhorar o Brasil através do governo Bolsonaro".

Errado de novo. Soares só poderia melhorar o Brasil "através (o correto seria dizer "por meio de") do governo Bolsonaro se fosse integrar o… governo Bolsonaro. Mas, até onde se sabe, um procurador-geral da República tem de ser independente do Executivo. Quanto ao apoio dos militares, dizer o quê? A menos que esteja pensando em dar um golpe militar, isso é irrelevante.

O homem parece ter algumas ideias tortas sobre democracia, Congresso e imprensa. Em 2014, ainda gozando a aposentadoria conquistada em condições irregulares, segundo o TCU, escreveu um artigo para a revista "Justiça & Cidadania" com título já bastante eloquente: "A farsa da democracia". Para ele, a dita-cuja "tal como é hoje praticada nos países ocidentais e imposta ao resto do mundo como modelo de regime político se apresenta como um verdadeiro embuste". Vê ainda uma associação entre políticos e mídia. Escreve: "dessa interação espúria entre eleitos e a imprensa audiovisual, nasce uma relação de cumplicidade, tornando ambos parceiros inseparáveis do jogo político".  

"Imprensa audiovisual"??? A crítica não consegue nem ser errada de tão obtusa. Em outro artigo — "A inefetividade das leis" —, o Congresso levou a pior: "Nosso corpo de legisladores nem é dado à reflexão e muito menos guiado pelo interesse público".

Bem, se indicado por Bolsonaro, Soares precisará de pelo menos 41 votos no Senado.

Bolsonaro pode até ser tentado a fazer a coisa errada. Mas o erro só prosperará com o aval de uma das Casas do Congresso. Sim, já errou muito no passado. Que procure se corrigir.

Não, meus caros! Não basta criticar a força-tarefa para que um candidato à PGR conte com meu entusiasmo. Nem tudo o que não era PT me servia, como sabe o governo Bolsonaro. Nem tudo o que não é Lava Jato me serve.

Eu nunca levei a sério a máxima de que o "o inimigo do meu inimigo é meu amigo".

Pode ser apenas mais um inimigo, ora.

Nota: não sou inimigo de ninguém nesse caso porque não disputo o poder.

Mas serei sempre inimigo da empulhação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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