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Reinaldo Azevedo

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Dallagnol queria um Bezerro de Ouro para cantar as próprias glórias

Reinaldo Azevedo

21/08/2019 07h30

Ilustração: jw.org

Que coisa!

Deltan Dallagnol, aquele, queria que se construísse um monumento à Lava Jato em Curitiba!

Sim, vocês entenderam direito.

Sempre me espanto quando penso nas mãos de quem o Brasil esteve — e, em certa medida, está ainda — durante um bom tempo.

Eis uma das duas figuras — a outra era Sergio Moro, aquele cujo pacote anticrime legaliza execuções sumárias — que se tornaram os guias de quase toda a imprensa brasileira. E setores consideráveis ainda estão rendidos a seus pés.

Leiam trecho de reportagem da Folha, em parceria com o site "The Intercept Brasil".
*
"Precisamos de estratégias de marketing. Marketing das reformas necessárias", disse o procurador Deltan Dallagnol em grupo de conversa com colegas em maio de 2016.

Dessa necessidade, mostram mensagens obtidas pelo site The Intercept Brasil e analisadas pela Folha, surgiu a ideia de fazer uma espécie de monumento à Lava Jato e às reformas em Curitiba, escolhido por meio de concurso.

O projeto nunca foi concretizado, mas rendeu discussões entre procuradores, com a chefia do Ministério Público Federal no Paraná e até com o então juiz Sergio Moro.

A colegas, no aplicativo Telegram, Deltan demonstrava entusiasmo com o projeto. O plano era realizar um concurso de uma escultura que simbolizasse a operação e mudanças defendidas pelos procuradores, como o projeto das Dez Medidas, que estava em tramitação no Congresso, e a reforma política.

"A minha primeira ideia é esta: Algo como dois pilares derrubados e um de pé, que deveriam sustentar uma base do país que está inclinada, derrubada. O pilar de pé simbolizando as instituições da justiça. Os dois derrubados simbolizando sistema político e sistema de justiça…"

O plano foi levado pelo procurador, que é chefe da força-tarefa, a Moro. Deltan esperava obter apoio do magistrado para colocar a peça na praça em frente à sede da Justiça Federal, que já virara local de atos em apoio à Lava Jato.

Citou a possibilidade de um concurso de escultura "que simbolize o fato de que a lava-jato é um avanço, mas precisamos avançar com reformas, como a reforma do sistema de justiça e do sistema político".

"Isso virará marco na cidade, ponto turístico, pano de fundo de reportagens e ajudará todos a lembrar que é preciso ir além… Posso contar com seu apoio?", questionou.

Moro, em conversa no aplicativo, transpareceu contrariedade: "Não é melhor esperar acabar?"

Deltan negou que o propósito fosse "endeusar" a operação e insistiu: "Eu apostaria que tão somente a existência do concurso já será matéria de jornal, estimulará o debate sobre reformas, e frisaremos na proposta do concurso das esculturas a necessidade de reformas e que elas simbolizem as reformas necessárias… sabemos que precisamos ir além, como país, e só estou pensando nisso para fazer tudo o que estiver ao meu/nosso alcance."

Segundo o chefe da força-tarefa, "A Paula mesmo adorou e se empolgou", em referência à procuradora-chefe no Paraná, Paula Conti Thá. Ele argumentou que o plano não seria da equipe da Lava Jato, mas da Procuradoria no Paraná com a Justiça Federal.

Depois de pedir um prazo para pensar, Moro deu opinião contrária: "Melhor deixar para depois. Em tempos de crise, o gasto seria questionado e poderia a iniciativa toda soar como soberba".

Para o então juiz, iniciativas que soam como homenagens "devem vir de terceiros".

Deltan disse na conversa por meio do aplicativo que não haveria gastos dos cofres públicos e que o "candidato faria com patrocínio privado".
(…)

RETOMO
Não sei o que pior: se a soberba, a estupidez ou cafonice.

A ideia de Deltan para o monumento expressa, como possa chamar, um grau avançado de retardo plástico e conceitual, mas não deixa dúvida nenhuma sobre os alvos da turma: a política e o Judiciário.

Isso dá uma ideia do delírio de poder que tomou a turma.

O rapazola que já pensou em abrir uma empresa, em nome da mulher, para cuidar de suas palestras — também as de autoajuda — deixa claro: o que queria não tinha como primeiro objetivo a Justiça, mas o marketing.

O monumento não saiu — ao menos por enquanto —, mas como negar que ele foi bem-sucedido na estratégia de marketing?

Ou por outra: Dallagnol e seu pares, o que inclui Moro, não conseguiram erguer a obra o que os eternizaria, mas podem ficar tranquilos: restarão por muito tempo na memória dos brasileiros.

Eles são os principais responsáveis pela tragédia política em curso. E respondem por parte razoável do desastre econômico.

Vejam lá a Itália. Não se recuperou até hoje dos sortilégios da Operação Mãos Limpas. A classe política do país foi dilapidada, a corrupção come solta, e o país vive um transe político de consequências imprevisíveis. Também por lá o centro foi destruído, e o país ficou entregue a súcias de extrema-direita.

O sonho de Dallagnol era ser um ídolo.

E é.

Com os pés de barro.

O Brasil não vai esquecer a turma que criou o Bezerro de Ouro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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