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Reinaldo Azevedo

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Lava Jato retoma ofensiva, tenta sair das cordas e mira Odebrecht de novo

Reinaldo Azevedo

21/08/2019 17h04

Leiam o que segue. Volto em seguida.

A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira (21) a 63ª fase da Operação Lava Jato, que tem como alvos de mandados de prisão os ex-executivos da Odebrecht Maurício Ferro, genro de Emilio Odebrecht, e Nilton Serson. O ex-presidente da Braskem (empresa do grupo), Bernardo Gradin, é alvo de mandado de busca.

A fase da operação tem como objetivo esclarecer suspeitas de pagamentos dos executivos aos ex-ministros de governos petistas Antonio Palocci e Guido Mantega.

Os repasses estariam relacionados à edição das MPs (Medidas Provisórias) 470 e 472, que instituíram refinanciamento de dívidas fiscais que beneficiaram as empresas. Segundo o Ministério Público Federal, Mantega recebeu R$ 50 milhões pela transação.

Ferro já foi preso pela PF e será encaminhado de São Paulo à superintendência de Curitiba. Serson está em viagem aos Estados Unidos, mas ainda não é considerado foragido.

Na casa de Ferro, a polícia diz ter encontrado quatro chaves de criptografia que devem dar acesso a informações ainda não obtidas pela PF sobre o setor de propinas da Odebrecht. Ele foi diretor-jurídico da empreiteira, mas não firmou delação premiada como outros executivos.

O delegado Thiago Giavarotti diz que das pastas ainda não acessadas devem sair informações sobre repasses de propina mais atuais do que as já conhecidas pela PF.

"Era algo que a Lava Jato vinha buscando há anos. (…) A perícia vai tentar acessar as informações e, se conseguirmos sucesso, há chances de alcançarmos informações, planilhas e dados que desconhecemos o potencial", afirmou.

"Havia um receio de que, se não houvesse a prisão dessas pessoas e se não fossem encontradas essas chaves, elas poderiam desaparecer", justificou o procurador Antonio Carlos Welter sobre os pedidos de prisão temporária, com prazo inicial de cinco dias.

A PF cumpriu ainda dez mandados de busca e apreensão, dois na Bahia e oito em São Paulo.

O repasse a Mantega, segundo a investigação, ocorreu por meio do setor de propinas da Odebrecht, registrado na conhecida planilha "Pós Itália" e pago pela Braskem.

Como parte do grupo Odebrecht, a Braskem também firmou acordo de leniência com o Ministério Público Federal.

Com o material disponibilizado, as investigações apontaram que Ferro, como diretor jurídico da empresa, celebrou ao menos 18 contratos advocatícios fraudulentos com Serson de 2005 a 2013 para esconder o pagamento de propinas.

Um dos contratos trataria justamente das discussões sobre o crédito de IPI, mesmo contexto dos crimes investigados, de acordo com as investigações.

"O grupo fez um investimento de milhões no ramo da legislação para ter bilhões de retorno", afirmou Giavarotti sobre o interesse da Odebrecht nas medidas provisórias.

Agora, segundo o delegado, a busca é por outros atos de ofício que tenham sido praticados por políticos em troca de propina. "[Ferro] foi responsável por tratar diretamente com os ministros a atuação para aprovação de medidas que eram de relevante interesse", disse.

Ainda deve ser esclarecido nessa fase como ocorreu a lavagem do dinheiro.

A PF aponta que ambos tinham contas no exterior para receber os valores. Só em 2010, de acordo com a investigação, offshores controladas por Serson receberam pelo menos R$ 10 milhões por ordem de Ferro. Depois, uma parte dos valores retornou ao executivo por contas no exterior.

Foi determinada ordem judicial de bloqueio de ativos financeiros dos investigados no valor de R$ 555 milhões.

Tanto Ferro como Serson são desafetos de Marcelo Odebrecht  — a irmã dele é casada com Ferro, que atuou como advogado nos acordos de delação e leniência da Odebrecht com a Procuradoria .

Marcelo também tem a Braskem como alvo. A petroquímica, como mostrou a Folha, é acusada por ele de mentir, omitir e manipular os seus acordos de delação e de leniência para proteger executivos que não queriam aparecer como criminosos. 

A Braskem é a joia da coroa da Odebrecht. Com 40 fábricas no Brasil, Estados Unidos, Alemanha e México, a petroquímica criada em parceria com a Petrobras foi responsável por 80% das receitas do grupo Odebrecht no ano passado. Numa negociação para venda para um grupo holandês, a empresa foi avaliada em R$ 41,5 bilhões. 

Marcelo afirma que a Braskem, por exemplo, errou ao falar em seu acordo de delação que os recursos entregues ao PT nas campanhas de 2010 e 2014, no valor total de R$ 150 milhões, eram provenientes de caixa dois. Segundo o executivo, houve doações legais e o chamado caixa três —quando uma empresa pede a um fornecedor para fazer a doação por ela.

LAVAGEM
O procurador Welter afirmou que a nova fase da operação busca apurar esses novos atos de lavagem de dinheiro e quem foram os destinatários finais dos recursos.

"É importante seguir o dinheiro até se descobrir quem foram os beneficiários desses pagamentos ocultos gerenciados pelo diretor jurídico da empresa e possivelmente operacionalizados por um escritório de advocacia", disse.

A operação foi intitulada Carbonara Chimica, que remete ao fato de que os investigados eram identificados como "Italiano" (Palocci) e "Pós-Itália" (Mantega) e ainda possui relação com a atividade desenvolvida pela empresa envolvida no esquema.

A defesa de Ferro informou que acabou de ter acesso à decisão e que logo deve se pronunciar sobre a prisão. Os advogados de Serson preferiram não se pronunciar sobre o caso. A reportagem aguarda retorno de contato com a defesa de Bernardo Gradin.
(…)
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COMENTO
A Odebrecht sempre foi a joia da coroa da Lava Jato. Durante os primeiros tempos da operação, dizia-se de forma nada discreta: "sem pegar a Odebrecht, a operação não vale nada".

A Lava Jato vive um momento delicado em razão da exposição de métodos francamente ilegais empregados no curso da investigação.

Para recuperar a sua imagem, precisava se alguma coisa grande. Está aí. Por óbvio, não estou afirmando que ilícitos não foram praticados, mas vemos a repetição de um padrão, já tornado um clássico, não é mesmo? A operação é desfechada e, junto, vem a condenação extrajudicial.

O grupo está na mira dos investigadores desde o ano de criação da operação: 2014. Em cinco anos, depois de todos os esforços feitos, ainda haveria um bolsão a ser devassado?

Vamos ver.

Parece que se abre um novo capítulo da operação, destinada, mais uma vez, a mesmerizar a imprensa com uma tempestade de acusações. E, desta feita, com sabor especial porque envolve também disputas de caráter familiar.

Fiquemos atentos. A operação buscava sair das cordas. Parece que está, quando menos, diante de um bom pretexto. E, do outro lado, estão os petistas de sempre, o que também se encaixa à metafísica da política.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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