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Reinaldo Azevedo

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Amazônia em chamas nos satélites da Nasa e origem da verba contra incêndios

Reinaldo Azevedo

22/08/2019 06h51

Imagem de satélite da NASA mostra a fumaça dos focos de incêndio na Amazônia (Foto: Lauren Dauphin – AFP)

E o governo Bolsonaro, quem diria?, está usando o que resta de dinheiro da Noruega e da Alemanha, doado para o Fundo Amazônia, para combater incêndios na região, registrados também por satélites da Nasa, ganhando e assombrando o mundo.

As florestas brasileiras estão em chamas. De 1º de janeiro até o último domingo, 18 de agosto, segundo dados do Inpe, foram registrados 71.497 focos em todo o País, alta de 82% em relação aos 39.194 focos registrados no mesmo período do ano passado. Segundo o ministro Ricardo Salles, parte é provocada por ações criminosas. Deve ser verdade.

Na cabeça do presidente Jair Bolsonaro, seu chefe, pode ser coisa de ONGs preservacionistas com o objetivo de atingi-lo. É uma aberração. Qualquer pessoa razoável é obrigada a concluir que, em havendo crimes, seus autores podem ter se sentido estimulado pela voz que emana do poder: contra o meio ambiente! Também o desmatamento e o garimpo ilegal cresceram assombrosamente neste ano.

Por quê? Porque os criminosos acham que contam com um aliado no Planalto. E, nesse particular, estão certos. Têm também a consciência de que faltam recursos ao Ibama para atuar de forma mais afetiva. Recursos que vão diminuir. Noruega e Alemanha suspenderam seus repasses e foram alvos da grosseria do presidente brasileiro.

Como estamos na pindaíba, o dinheiro que doavam — especialmente a Noruega — era fundamental para o trabalho de preservação. Daqui a pouco, ele também se vai. O próprio Ibama tem sido financiado por recursos do Fundo Amazônia.

Cresce a pressão na imprensa europeia, especialmente na alemã, para que a retaliação ao Brasil não se limite ao corte de recursos e atinja nossas exportações de carne e grãos.

Bolsonaro está fazendo um esforço danado para isso.

Leiam trecho de reportagem do Estadão.
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O governo Bolsonaro, ao mesmo tempo em que acusa a Noruega de matar baleias e a Alemanha de acabar com suas florestas, continua a usar o dinheiro doado pelos dois países europeus para combater os incêndios que se alastram pela floresta amazônica.

O contrato de R$ 14,717 milhões com o Fundo Amazônia, programa bancado com recursos doados a fundo perdido pela Alemanha e Noruega, foi firmado em junho de 2014 pelo Ibama, que precisa de recursos para financiar as operações de seu Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo). Com validade de 74 meses, o acordo só acaba em agosto de 2020. O Estado apurou que o acordo segue ativo e está financiando as ações federais de apoio ao combate aos incêndios.

Até dezembro do ano passado, R$ 11,721 milhões já tinham sido gastos pelo Ibama em operações de combate a incêndios na região, o equivalente a 80% do total obtido. Há no caixa, portanto, R$ 3 milhões para bancar ações do órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente (MMA). O plano desenhado com dinheiro dos europeus prevê que os combates em 2019 utilizem 12 caminhonetes adaptadas e dois caminhões adaptados tipo F4000, já licitados e em fase de fabricação.

As relações diplomáticas do Brasil com Noruega e Alemanha estão absolutamente abaladas, desde que o governo deflagrou uma crise no Fundo Amazônia e paralisou o programa que, há anos, é a principal fonte de recursos para proteção e preservação da floresta. O governo acusou o programa de ser usado para financiar ONGs e de ter irregularidades, mas não as apontou até hoje.

Depois de os dois países europeus suspenderem novos repasses ao fundo, o presidente Jair Bolsonaro disse que a chanceler Angela Merkel deveria usar sua "grana" para reflorestar a Alemanha. Sobre a Noruega, Bolsonaro divulgou um vídeo de caça a baleias na Dinamarca para acusar o país de matar os animais. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, também acusou a Noruega de caçar baleias e explorar petróleo no Polo Ártico.

Segundo o governo, há uma "guerra da comunicação" sobre a Amazônia que precisa ser vencida. Isso também passa por rever os dados científicos sobre o desmatamento divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
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De 1º de janeiro até o último domingo, 18 de agosto, segundo dados do Inpe, foram registrados 71.497 focos em todo o País, alta de 82% em relação aos 39.194 focos registrados no mesmo período do ano passado. O recorde anterior era de 2016, com 66.622 registros no mesmo período. Amazonas observa uma alta de 147 % no número de focos, enquanto Rondônia apresenta aumento de 198%. O Estado com maior número de focos é o Mato Grosso, com 13.641 focos, 88% a mais do que no ano passado.

Não é de agora que o Fundo Amazônia financia ações de combate a incêndios. A carteira de projetos do programa já desembolsou, em seis projetos aprovados nos últimos sete anos, mais de R$ 77,386 milhões para bancar, exclusivamente, medidas de controle do fogo na região.

O Ibama, com seus sucessivos cortes de orçamento pelo governo federal, também tem sido um órgão dependente de recursos do Fundo Amazônia. Em 2016, por exemplo, o Ibama precisou recorrer aos recursos para alugar helicópteros e até mesmo pagar o combustível de carros usados em suas ações de fiscalização. Conseguiu firmar um contrato de R$ 56,3 milhões com o fundo.
(…)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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