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Reinaldo Azevedo

O postulante ao Senado que se compara a Cristo e julga ouvir a voz de Deus

Reinaldo Azevedo

04/09/2019 08h13

Deltan Dallagnol durante pregação da Primeira Igreja Batista de Campo Grande, no Rio

Reportagem publicada pelo site The Intercept Brasil — revelando mensagens que Deltan Dallagnol trocou com seus pares e que, curiosamente, mandava a si mesmo no Telegram — evidenciam que o coordenador da força-tarefa vê a si mesmo não como um agente de estado, que tem funções definidas pela lei.

Ele se coloca no debate como um militante, um agitador e um pré-candidato a cargo eletivo. Durante mais de um ano, considerou a possibilidade de se candidatar a uma vaga ao Senado, tratando da questão com seus colegas procuradores e com políticos, atribuindo-se, adicionalmente, uma tarefa messiânica.

Quando Dallagnol mandava mensagens a Dallagnol, comparava-se a ninguém menos do que Jesus Cristo. Escreveu para si mesmo, no dia 29 de janeiro de 2018, sobre si mesmo:
"Tenho apenas 37 anos. A terceira tentação de Jesus no deserto foi um atalho para o reinado. Apesar de, em 2022, ter renovação de só 1 vaga e de ser Álvaro Dias, se for para ser, será. Posso traçar plano focado em fazer mudanças e que pode acabar tendo como efeito manter essa porta aberta".

Naquele ponto, ele já havia desistido da candidatura, mas deixava claro, como se pode constatar, que pensa ainda em se candidatar nas próximas eleições. Vale dizer: o coordenador da força-tarefa, que tem poderes de polícia como membro do MP, que denuncia políticos à Justiça e define alvos de investigação, é também um… político.

A desordem que PGR, Conselho Nacional do Ministério Público e Conselho Superior do Ministério Público permitiram que prosperasse na Lava Jato criou uma figura exótica que, na condição de procurador, pode eliminar do jogo seus adversários políticos, e, na condição de político, usa os poderes de procurador para se impor.

OS NÃO-INVESTIGADOS
Ele se refere a Dias com um certo tom de lamento — caso tenha de concorrer com o senador — porque este se pretende uma espécie de porta-voz da Lava Jato no Senado. É, por exemplo, o principal entusiasta da tal da CPI da Lava-Toga, uma aberração que pretende fazer com que um Poder da República investigue o Outro.

A proximidade tem sido boa para Dias. Como revelou reportagem do UOL, ele "já foi citado como beneficiário de propinas pagas em dois episódios investigados pela operação. Apesar disso, o parlamentar nunca foi oficialmente investigado pela força-tarefa. (…) Moro e os procuradores já ouviram em depoimentos relatos de participação do senador em negociações para obstruir duas comissões de inquérito abertas no Congresso para apuração de crimes na Petrobras e relacionados ao bicheiro Carlinhos Cachoeira. A participação do senador nesses casos nunca foi apurada."

Afinal, o político Dallagnol tem suas prioridades. Outra reportagem, esta da The Intercept Brasil em parceria com a Pública, informa que uma empresária que financiou o Instituto Mude, praticamente criado pelo procurador, também foi poupada pela Lava Jato. Trata-se de Patrícia Tendrich Pires Coelho. Sócios seus foram alvos da operação. Ela era considerada uma "investidora anjo" do Mude.

O MILITANTE
Ainda conversando consigo mesmo, Dallagnol considera a hipótese de, mesmo no MPF, partir para a militância aberta. Como sabe que estaria fazendo algo impróprio, considera o risco de ser alvo da ação corretiva do Conselho Nacional do Ministério Público. Escreve:
"Precisaria me dedicar bastante a isso e me programar. Para aumentar a influência, precisaria muito começar uma iniciativa de grupos de ação cidadã. Dois pilares seriam: grupos de ação cidadã em igrejas e viagens. Tem um risco de CNMP, mas é pagável, cabendo fazer uma pesquisa de campanhas públicas (de órgãos) de voto consciente, para me proteger."

Não é notável? No fundo, até ele próprio acha que o CNMP deveria lhe impor freios, o que nunca aconteceu.

Sim, ele considerou também cair fora do Ministério Público Federal:
"Lutar pela renovação enquanto cidadão, pedindo exoneração: esta seria a solução ideal pela perspectiva da credibilidade (não seria político, mas ativista) e de intensidade ("Não vote em Fulano). Perderia um pouco de credibilidade e visibilidade, por deixar a posição pública de coordenador da operação. Não teria riscos de corregedoria. Poderia me dedicar integralmente às 10+"

POR QUE FICOU?
Bem, o procurador temeu, sim, que se candidatar poderia afetar a reputação da Lava Jato. Mas há outro motivo mais prosaico para a desistência. Dallagnol reconhece que a vida de procurador é muito melhor do que a de político. E, diz ele, também paga mais. No seu caso, como sabemos, teve remuneração verdadeiramente nababesca com as palestras. Considerou em conversa com Luciana Asper Valdir sobre se tornar um senador (segue conforme o original):
"Eu não gostaria, sendo sincero, por uma série de razões. Não é meu perfil, é uma turbulência na vida familiar, ganha menos, tem menos férias, fica tomando pedrada na vitrine num jogo de menitras, correria um risco grande ao me desligar do MPF, tem a questão da LJ etc. Contudo, tem muitas pessoas que respeito muito que estão incentivando, inclusive o pessoal da LJ. Hoje, descogito, e essa é a melhor resposta para quem pergunta, até para não expor o caso. A verdade é que quero em minha vida, em primeiro lugar, servir a Deus, e a Bíblia coloca que a vida do cristão é como o vento, que não sabe para onde vai. Se um dia decidir tentar, é porque entendi que é o melhor modo de servir a Deus e aos homens e por puro espírito público, porque vontade não tenho, Lu. Qual a sua impressão?"

E você aí achando que a vida de político é que é boa… Parece que a de procurador da Lava Jato é bem melhor, leitor!

Luciana, procuradora no Distrito Federal, parece ser uma colega de fé de Dallagnol. Respondeu:
"Entendo vc perfeitamente! Penso exatamente como vc. E confio plenamente que Deus o guiará em todos os caminhos. Vc ouvirá a voz Dele e Ele te colocará onde Ele precisa para continuar no caminho de restauração do que deveria ser está nação que Ele agraciou com tantas bênçãos e foi tão maltratada pelos líderes até hj. Eu confesso que peço todos os dias a Deus para colocar o poder neste país nas mãos dos filhos Dele, verdadeiros cristãos que queiram dar a prosperidade planejada para este Brasil. Falta liderança do bem em todos os cantos. Vc já fez alguma escola no Mpf. Precisamos de um novo congresso sem duvida. Difícil avançarmos com o que vemos por lá. Precisamos de lideranças em todos os cantos! Deixa Deus te guiar que Ele saberá exatamente onde vc deve estar!"

CONCLUO
A tragédia política que se abateu sobe o país não se deu por acaso. Funcionários públicos, com deveres definidos pelo Estado — membros de um órgão ao qual se conferiu tanto o poder de polícia como a titularidade da ação penal — decidiram fazer política abertamente, afrontando não os poderosos que cometeram crimes, mas os Poderes da República.

Pior: ao fazê-lo, julgavam-se e julgam-se ungidos por Deus. Sendo assim, não é há por que aceitar reprimenda dos homens, não é mesmo?

Eis por que qualquer defesa da ordem legal, frequentemente agredida pela operação, merece como resposta: "Estão querendo acabar com a Lava Jato". E, afinal, contestar a Lava Jato corresponde a enfrentar a voz daqueles que dizem falar em nome de Deus.

Por alguma razão que não foi explicada, a "palavra de Deus" coincide com os interesses objetivos de Dallagnol.

 

 

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.