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Reinaldo Azevedo

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Lembram-se de “Bessias”? Também aquela história era tramoia da Lava Jato!

Reinaldo Azevedo

08/09/2019 09h54

Dilma exibe termo de posse de Lula — posse que acabou não acontecendo por decisão judicial. Moro estava cuidando dos fios da narrativa

Vocês se lembram daquele diálogo entre Lula e Dilma, gravado e vazado ilegalmente por Sergio Moro, em que a assinatura do termo de posse sugeria que o intuito principal da nomeação do ex-presidente como ministro era livrá-lo de uma eventual decretação de prisão preventiva? É aquele em que a então presidente chama o servidor Jorge Rodrigo Araújo Messias de "Bessias". Pois é… Cabe reproduzir um trecho:

Dilma: Seguinte, eu estou mandando o 'Bessias', junto com o papel, para a gente ter ele e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse.
Lula: Aham. Tá bom, tá bom.
Dilma: Só isso, você espera aí que ele está indo aí.
Lula: Tá bom, estou aqui. Fico aguardando.
Dilma: Tchau.
Lula: Tchau, querida
.

Outras conversas gravadas, que agora vêm a público em reportagem da Folha e do site The Intercept Brasil, evidenciam que aquela preocupação, se existente, era não mais do que lateral.

As conversas revelam um Lula relutante, que decidiu assumir o ministério depois de uma ampla consulta — que não ficou restrita a petistas: conversou, por exemplo, com Michel Temer, então vice-presidente —, preocupado, então, fundamentalmente, com medidas que contribuíssem para tirar o Brasil e Dilma do buraco. Se dariam certo ou não, se aprofundariam a crise, bem, isso é conversa para outras tertúlias.

O fato: a nomeação de Lula com o intuito de tirá-lo da mira da Lava Jato foi mais uma narrativa criada pela força-tarefa, cujo coordenador, de fato, como se sabe, era Sérgio Moro.

Outros diálogos que já vieram a público evidenciam que o então juiz, de modo deliberado, decidiu afrontar a lei, desafiar o Supremo e divulgar as conversas que sabia gravadas fora do período legal.

Leiam a reportagem, os diálogos de membros da Lava Jato e o resumo. das conversas mantidas por Lula.

Há uma pergunta de resposta óbvia: por que Sergio Moro resolveu omitir tais diálogos do distinto público? Porque sabia que eles não endossavam a história que ele decidiu contar e que servia a seu projeto de poder, que ainda está em curso — que tem, no momento, o próprio Jair Bolsonaro como um dos adversários.

Justamente Bolsonaro, o maior beneficiário político, até agora, da Lava Jato, de suas ilegalidades e de suas mentiras.

Segue trecho.

*
Por Ricardo Balthazar e Felipe Bächtold, da Folha
Por Bruna de Lara, Paula Bianchi e Leandro Demori, de The Intercept Brasil

Conversas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) gravadas pela Polícia Federal em 2016 e mantidas em sigilo desde então enfraquecem a tese usada pelo hoje ministro Sergio Moro para justificar a decisão mais controversa que ele tomou como juiz à frente da Lava Jato.

Em 16 de março de 2016, cinco horas depois de mandar interromper a escuta telefônica que autorizara no início do cerco da operação ao líder petista, Moro tornou público um diálogo em que a então presidente Dilma Rousseff tratou com Lula de sua posse como ministro da Casa Civil.

A divulgação do áudio de 1min35s incendiou o país e levou o Supremo Tribunal Federal a anular a posse de Lula, às vésperas da abertura do processo de impeachment e da deposição de Dilma. Para a Lava Jato, o telefonema mostrava que a nomeação de Lula como ministro tinha como objetivo travar as investigações sobre ele, transferindo seu caso de Curitiba para o STF.

Mas registros inéditos obtidos pela Folha e analisados em conjunto com o site The Intercept Brasil indicam que outras ligações interceptadas pela polícia naquele dia, mantidas em sigilo pelos investigadores, punham em xeque a hipótese adotada na época por Moro, que deixou a magistratura para assumir o Ministério da Justiça no governo Jair Bolsonaro (PSL).

A reportagem teve acesso a anotações dos agentes que monitoraram Lula, com resumos de 22 conversas grampeadas após a interrupção da escuta em março de 2016. Elas foram gravadas porque as operadoras de telefonia demoraram a cumprir a ordem de Moro e o sistema usado pela PF continuou captando as ligações.

Os diálogos, que incluem conversas de Lula com políticos, sindicalistas e o então vice-presidente Michel Temer (MDB), revelam que o petista disse a diferentes interlocutores naquele dia que relutou em aceitar o convite de Dilma para ser ministro e só o aceitou após sofrer pressões de aliados.

O ex-presidente só mencionou as investigações em curso uma vez, para orientar um dos seus advogados a dizer aos jornalistas que o procurassem que o único efeito da nomeação seria mudar seu caso de jurisdição, graças à garantia de foro especial para ministros no Supremo.

As anotações mostram que Lula estava empenhado em buscar uma reaproximação com Temer e o MDB e indicam que seus acenos eram bem recebidos pelo vice-presidente, na época visto como fiador da transição para o novo governo que seria formado se Dilma fosse afastada do cargo.

A PF escutou duas conversas de Lula e Temer. Na primeira, eles marcaram uma reunião para o dia seguinte, e Lula disse a Temer que a rejeição enfrentada pelos políticos numa recente manifestação pró-impeachment mostrava que o avanço da Lava Jato criara riscos para todos os partidos, não só o PT.

Na segunda ligação, após discutir a situação de um aliado do vice-presidente no governo, o petista prometeu ser um parceiro e disse que eles deveriam atuar como "irmãos de fé". Segundo as anotações dos agentes da PF, Temer respondeu a Lula dizendo que "sempre teve bom relacionamento" com ele.

Embora os registros mostrem que os policiais prestaram atenção a todas as conversas do ex-presidente, o telefonema de Dilma foi o único que a PF anexou aos autos da investigação sobre Lula nesse dia antes que Moro determinasse o levantamento do sigilo do processo.

Mensagens que integrantes da Lava Jato trocaram no aplicativo Telegram, obtidas pelo Intercept e analisadas em conjunto com a Folha, mostram que um dos policiais na escuta alertou os investigadores para o telefonema de Dilma assim que ouviu a ligação e foi instruído a produzir um relatório.

Não foi o que ocorreu com as outras conversas. O mesmo agente usou o Telegram para avisar que Lula também falara com Temer e fez um resumo do primeiro diálogo entre eles, com duas horas de atraso. Nenhum dos investigadores que participava do grupo reagiu à informação no Telegram.

O material examinado pela Folha e pelo Intercept mostra que o grampo permitiu que a Lava Jato soubesse do convite de Dilma a Lula com uma semana de antecedência e usasse o tempo para preparar junto com Moro o levantamento do sigilo da investigação e das escutas telefônicas.
(…)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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