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Reinaldo Azevedo

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Nova denúncia contra Lula e Frei Chico é a Lava Jato na fase da chanchada

Reinaldo Azevedo

10/09/2019 08h02

Em primeiro plano, Frei Chico, irmão de Lula. Acusação de corrupção passiva soa ridícula (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress)

A Lava Jato de São Paulo acusa o ex-presidente Lula e um de seus irmãos, José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico, de "corrupção continuada" na relação com a Odebrecht. Repetirei as palavras do advogado Julio Cesar Fernandes Neves, advogado de Frei Chico: "A denúncia é uma aberração".

Qual é o caso?

Como reconhece a própria força-tarefa, Frei Chico fazia um trabalho de consultoria na área sindical para a Odebrecht desde a década de 90. Em 2002, ano da eleição de Lula, houve uma interrupção. O trabalho foi retomado em 2003 e se manteve até 2015.

Onde estaria a corrupção passiva? Dizem os procuradores que, antes de Lula ser presidente, Frei Chico efetivamente prestava serviços à Odebrecht. Depois disso, por alguma razão, só os pagamentos teriam sido feitos, mas sem a contrapartida em trabalho.

Mais do que aberração, diria que a denúncia chega a ser ridícula — e pouco me importa se existem delatores dizendo o contrário. Em troca de benefícios, pode-se falar muita coisa.

O valor da "corrupção passiva continuada" seria de R$ 1,5 milhão, que corresponde à soma dos pagamentos feitos ao irmão de Lula entre 2003 e 2015.

Para começo de conversa, ainda que se tratasse mesmo de um mimo ao irmão do presidente, o mandato de Lula terminou em 2010. Que ato de ofício — ou promessa de — o então ex-presidente praticou em favor da Odebrecht entre 2011 e 2015, estando fora do cargo? Corrupção passiva por quê? Mas aí o valor seria substancialmente reduzido, não é? A denúncia pareceria ainda mais fraca do que é.

Então Frei Chico, segundo a denúncia, efetivamente prestava serviços antes de o irmão famoso chegar ao poder, mas, depois disso, resolveu levar apenas a grana? Que sentido isso faz?

A denúncia não lista a contrapartida objetiva que Lula teria oferecido à Odebrecht para que esta mantivesse o pagamento mensal ao irmão — entre R$ 3 mil e R$ 5 mil. E, quando tenta fazê-lo, a coisa se torna mais ridícula ainda.

Informa a Folha:
"Lula é incluído na denúncia porque, segundo a acusação, a Odebrecht optou pelos repasses para obter benefícios junto ao governo federal da época. Como contrapartida, é mencionada a articulação da empresa para evitar o retorno da Petrobras ao setor petroquímico, onde a Odebrecht atua por meio da Braskem."

É mesmo? Então uma coisa desta magnitude — o retorno ou não da Petrobras ao setor petroquímico — custou, em corrupção passiva, a bagatela de R$ 1,5 milhão, dinheiro que teria sido pago ao longo de… 13 anos?

Só não é uma piada porque envolve a honra de pessoas.

LULA, O POBRE, E A PEQUENA CORRUPÇÃO
Eu não tenho dúvida de que o PT e partidos aliados pintaram e bordaram quando estavam no poder — como costumam pintar e bordar os poderosos. E é claro que isso tem de ter fim.

Mas peço que o leitor atente para algumas coisas. Então Lula teria interferido em negócios verdadeiramente multibilionários da OAS, por exemplo, e, como prêmio, teria recebido um tríplex mixuruca, de R$ 1,2 milhão à época? Ou benefícios num sítio que teriam ficado abaixo disso: R$ 800 mil?

No caso agora em questão, a eventual competição de duas gigantes no setor petroquímico teria custado, em corrupção, R$ 1,5 milhão ao longo de 13 anos???

Só Sérgio Machado se comprometeu a devolver R$ 70 milhões do dinheiro que roubou como presidente da Transpetro.

Pedro Barusco, gerente de engenharia da Diretoria de Serviços da Petrobras, confessou ter recebido US$ 100 milhões em propina. Devolveu esse dinheiro, que estava depositado no exterior. Aliás, nem tornozeleira o homem tem mais.

Vai ver Lula era o chefe do esquema todo, como quer Deltan Dallagnol em seu PowerPoint, que há de entrar para a história do direito jogado no lixo, mas, na hora de roubar, se contenta com coisas mixurucas.

Parece evidente que, não havendo as provas com que incriminar Lula, o MPF não teme o ridículo de recorrer a essas miudezas que seriam presentinhos para compensar as facilidades, então, multibilionárias que o petista teria criado para essas empresas.

A discriminação social no Brasil é tão grande que os senhores moralistas da Lava Jato acham que um ex-pobre não sabe nem roubar direito. Até isso seria um privilégio das pessoas de mais fino trato, não é mesmo?

Você assistiria a um filme com esse roteiro?

A denúncia da Lava Jato de São Paulo chega à fase da chanchada.

E, claro, vem um dia depois de ficar claro que houve uma descarada manipulação na divulgação do conteúdo dos grampos ilegais feitos em 2016, ilegalmente divulgados. Por Sergio Moro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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