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Reinaldo Azevedo

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2022: em vez de aprender com Rui Costa, da Bahia, o PT decide lhe dar pito

Reinaldo Azevedo

16/09/2019 07h25

Rui Costa, governador da Bahia: petista faz uma gestão amplamente aprovada pela população e ousa desafiar ortodoxias (Foto: Jonne Roriz/Veja)

A extrema-direita e a direita já estão em campo de olho em 2022. As evidências se veem em todo canto. No terreno da esquerda, o debate, por enquanto, é refém de duas palavras — "Lula livre" —, que servem até para distinguir adversários do mesmo lado, como é o caso de Ciro Gomes, do PDT. Rui Costa, o petista que governa a Bahia em segundo mandato, ousou, em entrevista às páginas amarelas da Veja desta semana, ampliar o horizonte da, vamos dizer assim, "não-direita". E foi alvo de uma impressionante saraivada de críticas. Todas oriundas do seu próprio partido.

De saída, reitero pela undécima vez: Lula foi condenado sem provas. Antes mesmo que as revelações feitas pelo site The Intercept Brasil viessem a público, sustentei aqui que foi vítima de procedimentos de exceção porquanto não se seguiram as regras do devido processo legal. Depois da Vaza Jato, então, dizer o quê? Qualquer um que tenha um mínimo de rigor há de reconhecer que o petista deixou de ser um político preso — o que poderia ser até sinal de fortalecimento da democracia — para ser um preso político: e isso é um sinal de corrosão do estado democrático.

Dito isso, acho, sim, e já escrevi aqui e disse no programa "O É da Coisa", que o PT não pode render os 47.040.906 votos que teve (44,87% do total de válidos) àquelas duas palavras. Segundo o Datafolha do começo deste mês, se a eleição fosse hoje, Bolsonaro seria derrotado pelo mesmo Fernando Haddad (42% a 36% do total, com 18% de brancos e nulos e 4% de gente que não saberia em quem votar). Só 74% do que declaram ter votado no atual presidente (57.797.847) repetiriam seu voto: ou 42.770.406. O petista conservaria 88% dos votos (41.395.997) e herdaria 10% dos dados ao adversário: 7.779.784, perfazendo 49.175.781.

É claro que isso capta o retrato de agora. Mas parece evidente que um número considerável de eleitores já desertou da escolha feita em outubro do ano passado. E a esquerda nem precisou fazer grande esforço para isso — na verdade, ela foi flagrantemente derrotada nos embates parlamentares e tem sido, até agora, mera caudatária reativa das barbaridades que o bolsonarismo põe para circular no mercado da política. Já volto a Rui Costa, mas antes tenho de fazer uma lembrança.

DICAS DE UM LIBERAL
Não sou de esquerda. As opiniões que emito aqui não buscam influenciar o petismo. Se Dilma tivesse me ouvido, como prova o arquivo, não teria indicado Rodrigo Janot para a Procuradoria-Geral da República nem escolhido para  o Supremo os ministros Luiz Fux, Rosa Weber, Roberto Barroso e Edson Fachin. Já que se fala de Lula, noto: estão aí quatro dos seis votos que o mantiveram na cadeia. Há um quinto também indicado pelo PT: Cármen Lúcia. Não é engraçado? Atendendo aos lobbies da esquerda e desprezando as restrições deste liberal de direita, o partido fez opções que concorreram para o encarceramento de seu maior líder. Para lembrar: três dos cinco votos favoráveis ao ex-presidente vieram de indicações feitas por não petistas: Celso de Mello (José Sarney), Marco Aurélio (Fernando Collor) e Gilmar Mendes (FHC).

MAS DISSE O QUÊ?
Mas o que diz Costa de tão grave para ter apanhado do petismo? Afirmou que o PT deveria ter apoiado Ciro Gomes no ano passado porque a resistência ao partido era muito forte; que a legenda deve fazer propostas sobre desenvolvimento em vez de ser puramente reativa, buscando desde já composição com outros partidos que estão na oposição, como PSB e PDT; que o "Lula Livre" não deve ser critério de exclusão para formar essa frente, embora ressalte a arbitrariedade da sua prisão; que a legenda deve se reconectar com a população; que tem de apresentar uma proposta de segurança pública de desencarceramento de autores de pequenos delitos e que tenha maior severidade nas penas para crimes contra a vida; que é preciso ampliar as parcerias com o setor privado em obras de infraestrutura, como saneamento…

Não, Costa não descartou o próprio nome como presidenciável, embora tenha insistido na formação de uma espécie de frente para se definir a candidatura desse campo que muitos chamam "progressista". E cometeu a ousadia adicional de afirmar o seguinte sobre a Venezuela: "Há sinais claros de que a democracia está sendo desrespeitada e de que agressões estão sendo desferidas contra pessoas e seus direitos." Foi econômico e impróprio na crítica quando respondeu à pergunta se o país era uma ditadura: "Não tenho elementos para classificar a Venezuela dessa forma. Ainda." Bem, a Venezuela é uma ditadura sob qualquer critério civilizado que se queira.

A ARMADILHA DE BOLSONARO
Como um sapo de fora, que não é de esquerda, este liberal diz, sem medo de errar, que se trata de uma entrevista lúcida — exceção feita à crítica ainda suave à ditadura de Maduro. Qual é o jogo explícito de Bolsonaro? Já revelamos aqui: aniquilar seus adversários de centro e de direita desde já — vejam as agressões contínuas a João Doria —, induzir a esquerda à radicalização e disputar com Lula em 2022, seja este candidato ou não. Bastará que esteja livre — e espero que esteja — para que o atual presidente faça as pazes com o lava-jatismo, numa reedição da luta do bem contra o mal.

A armadilha discursiva chega a ser pueril de tão evidente, o que não é sinônimo de ineficaz se seus adversários insistirem em não aprender nada e em não esquecer nada. Na nota em que critica Rui Costa, obrigando o governador a reiterar, também em nota, o que disse na entrevista — defende a liberdade de Lula —, o PT volta a flertar com o regime de Nicolás Maduro, o que é do balacobaco! Bolsonaro tem aliados que são do arco da velha, como vemos, e que colaboram para que sofra uma rejeição inédita nesta fase do governo. Só vai se dar bem se conseguir ter adversários piores e com ainda menos noção da realidade.

CRÍTICA FORA DE FOCO E NÚMEROS
Rui Costa se reelegeu na Bahia com 75,5% dos votos no primeiro turno (5.096.062). A eleição era tão certa que se dedicou quase que exclusivamente à disputa federal. A Bahia tem a quarta população do Brasil. Só perde para São Paulo, Rio e Minas.

O Estado deu nada menos de 72,69% dos votos válidos a Haddad — que muitos chamavam ainda "Andrade" —, perdendo, em percentagem, apenas para o Maranhão (73,26%) e o Piauí (77,05%). Foram 5.484.901 votos. Ou por outra: o PT da Bahia conseguiu mais eleitores para o quase desconhecido "Andrade" do que para o próprio Costa — é bem verdade que este venceu em primeiro turno e não recebeu os "votos úteis" ou de "de rejeição" — no caso, rejeição à alternativa.

Em números absolutos, Haddad só teve mais votos em São Paulo: 7.212.132, embora tenha perdido feio no Estado: 67,97% a 32,03%. Ocorre que há uma diferença brutal de população: 45 milhões contra 15 milhões. Para se ter uma ideia: se o estado de origem do candidato do PT tivesse lhe dado em votos o percentual que deu a Bahia, teria vencido Bolsonaro por 56.197.220 a 48.641.532 votos.

Haddad venceu, é verdade, em todos os Estados nordestinos e em dois da Região Norte: Pará e Tocantins. Mas, em apenas quatro, o percentual chegou à casa dos 70%: o quarto é o Ceará. Só no Estado governado por Rui Costa, o petista obteve uma votação superior à soma de Alagoas, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Tocantins.

Dizer o quê, meus caros? Numa democracia, números também são argumentos.

Aliás, quando se contabilizam as urnas, viram o argumento principal: governa quem recebe mais votos.

A direção do PT deveria estar se perguntando o que tem a aprender com a Bahia em vez de ficar dando pito no governador.

Parece-me que a tese está suficientemente demonstrada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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