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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Ao abrir Sínodo da Amazônia, papa fala do fogo que salva e do que destrói

Reinaldo Azevedo

07/10/2019 06h50

Vista geral da missa que marcou a abertura do Sínodo da Amazônia (Reprodução)

O papa Francisco abriu neste domingo o Sínodo da Amazônia, que tanto preocupa e, ora vejam!, irrita Jair Bolsonaro. Para vocês terem uma ideia do absurdo, o Planalto chegou a reivindicar que o governo brasileiro tivesse um representante seu no encontro, que reúne 185 bispos dos nove países da região — 58 deles são do Brasil. O Vaticano teve de lembrar que sínodos são feitos para… bispos! Mito não entra…

Por incrível que pareça, o governo Bolsonaro considera que o Sínodo é uma provocação dos comunistas da Igreja Católica contra o glorioso presidente do Brasil. Pois é… Não é assim. Como já informei aqui, os temas do Sínodo, que se estende até o dia 27, estão no site da CNBB faz tempo.

O encontro de agora foi convocado pelo papa Francisco no dia 15 de outubro de 2017. Nada indicava, então, que o "Mito" se tornaria presidente. E o tema foi definido então: "Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral". Reproduzo as palavras de Francisco quando o convocou: "[a finalidade] é encontrar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, sobretudo dos indígenas, muitas vezes esquecidos e sem a perspectiva de um futuro sereno, também por causa da crise da floresta Amazônica, pulmão de importância fundamental para o nosso planeta".

Não é pulmão, a gente sabe, mas é fundamental para o planeta.

Na homilia (leia íntegra nesta página), o papa apelou à alegoria do "fogo" em duplo sentido: aquele que consome a floresta em nome de interesses mesquinhos, a ser combatido pelo outro, o da fé.

Afirmou:
"Para sermos fiéis a esta chamada, à nossa missão, São Paulo lembra-nos que o dom deve ser reaceso. O verbo usado é fascinante: reacender, no original, significa literalmente «dar vida a uma fogueira» [anazopurein]. O dom que recebemos é um fogo, é amor ardente a Deus e aos irmãos. O fogo não se alimenta sozinho; morre se não for mantido vivo, apaga-se se a cinza o cobrir. Se tudo continua igual, se os nossos dias são pautados pelo «sempre se fez assim», então o dom desaparece, sufocado pelas cinzas dos medos e pela preocupação de defender o status quo. Mas «a Igreja não pode de modo algum limitar-se a uma pastoral de "manutenção" para aqueles que já conhecem o Evangelho de Cristo. O ardor missionário é um sinal claro da maturidade de uma comunidade eclesial. Porque a Igreja está sempre em caminho, sempre em saída; nunca fechada em si mesma. Jesus veio trazer à terra não a brisa da tarde, mas o fogo."

Esse é o fogo da salvação. Mas ele também se referiu ao da destruição, que busca eliminar ainda a diversidade cultural. Nesse ponto, fez uma distinção entre "colonização" e "evangelização". Disse:
"O fogo de Deus, como no episódio da sarça ardente, arde mas não consome (cf. Ex 3, 2). É fogo de amor que ilumina, aquece e dá vida; não fogo que alastra e devora. Quando sem amor nem respeito se devoram povos e culturas, não é o fogo de Deus, mas do mundo. Contudo quantas vezes o dom de Deus foi, não oferecido, mas imposto! Quantas vezes houve colonização em vez de evangelização! Deus nos preserve da ganância dos novos colonialismos. O fogo ateado por interesses que destroem, como o que devastou recentemente a Amazónia, não é o do Evangelho. O fogo de Deus é calor que atrai e congrega em unidade. Alimenta-se com a partilha, não com os lucros. Pelo contrário, o fogo devorador alastra quando se quer fazer triunfar apenas as próprias ideias, formar o próprio grupo, queimar as diferenças para homogeneizar tudo e todos."

Como informa a Folha, "As palavras do papa resumem os eixos dos debates que ocorrerão nas próximas semanas entre os participantes do sínodo: como renovar as ações da igreja na Amazônia e como lidar com as questões ambientais e socioeconômicas que afetam a população. Para aumentar a presença de religiosos no bioma, superar as grandes distâncias entre as comunidades e dificuldades de acesso e reduzir a perda de católicos para as igrejas evangélicas, serão discutidas as possibilidades de ordenar homens casados como sacerdotes, criar ministérios oficiais para as mulheres e incorporar costumes dos povos indígenas em rituais católicos."

Com o Sínodo da Amazônia, a região entra de maneira especial no radar do Vaticano, e é isso o que preocupa o governo Bolsonaro. Já hoje, antes de a Igreja Católica estar particularmente dedicada à região, os religiosos são parte importante da resistência de comunidades indígenas ao avanço de madeireiros e garimpeiros, que veem no presidente uma espécie de porta-voz de suas demandas.

E, como se sabe, Bolsonaro não esconde o seu intento. A aberração em forma de discurso que leu na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas o evidenciou.

Não tardará, e os fiéis da seita bolsonarista começarão a atacar o "globalismo" da Igreja Católica, que vem, deixem-me ver…, desde a fundação do chamado Trono de Pedro! Quando menos porque "katholikós", em grego, quer dizer "universal".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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