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Reinaldo Azevedo

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Ameaças de Canal expõem fundo do poço legal. E os ladrões de instituições

Reinaldo Azevedo

08/10/2019 07h45

Que coisa!

Leio no Painel, da Folha, a seguinte informação:
"Soou como tiro de alerta entre procuradores e juízes o telefonema, revelado pela Folha, nesta segunda (7), em que Marco Aurélio Canal, um dos auditores da Receita presos pela Lava Jato do Rio, disse ter distribuído cópias de processos atrelados à operação a interlocutores. Investigadores familiarizados com o caso lembram que, quando a conversa chegou a eles, ainda durante a apuração, ela foi interpretada como tentativa de intimidação. Encarcerando-o, a força-tarefa dobrou a aposta."

Vamos ver aposta em quê.

Creio que os defensores do "pega-pra-capar" do lava-jatismo têm material de sobra para refletir, não é mesmo?

Em que ambiente prospera um Marco Aurélio Canal? Ora, naquele em que não existem leis ou regras.

Eu estou enganado — e eu não estou! —, ou Deltan Dallagnol, em conversa com seus parceiros de folguedos, afirmou que iria pedir para uma fonte sua na Receita informações sobre a vida fiscal de familiares de ministros do Supremo?

Qual fonte?

Não é impressionante que, até hoje, este rapaz não tenha tido de responder a isso e por isso?

Flertar com os métodos ilegais da Lava Jato corresponde, senhores políticos e senhores juízes, a pôr uma corda no próprio pescoço.

Penso, por exemplo, naqueles bravos senadores que arrotam por aí a CPI da Lava Toga. Fiquemos com o decano da turma, o senador Álvaro Dias (Podemos-PR). Nem sempre uma força-tarefa será de Curitiba. Nem sempre será tão generosa com um conterrâneo.

Por óbvio, não é por medo do que se fez que se deve defender que a investigação siga a trilha do estado de direito. É sobretudo por medo daquilo que não se fez.

Quando se outorga a mulheres e homens de Estado a licença de agir ao arrepio da lei, eles se transformam num poder. E se impõem, ora vejam!, ao arrepio da lei a depender de seus interesses e de sua inclinação política.

As leis existem, nas democracias, justamente para conter esses apetites.

Sabe por que Canal fez o que fez? Porque lhe davam o poder para fazer o que fazia.

Se um dos achacados não tivesse corrido o risco de denunciá-lo, ele continuaria a assaltar as suas vítimas.

Mas esse é o tipo de larápio que se combate com razoável facilidade.

Difícil mesmo é enfrentar os ladrões de instituições. Afinal, eles falam em nome da moralidade, dos bons costumes e do combate à corrupção.

"Ah, então todos que fazem esse discurso são ladrões de instituições, Reinaldo?"

Não.

Mas todos os ladrões de instituições fazem esse discurso.

São poucos os asnos a defender o Estado policial que não se tornam vítimas de sua própria concepção de mundo. Fosse só por eles, vá lá: que experimentassem do próprio remédio como lição e moral da história. O diabo que tal remédio costuma ser ministrado também aos outros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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