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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Bolsonaro entre Coringas virtuais da periferia do capitalismo e aduladores

Reinaldo Azevedo

08/10/2019 07h47

Joaquin Phoenix no papel de Coringa, o palhaço que transformou ressentimento e irrelevância em caos (Divulgação)

O presidente Jair Bolsonaro e o entorno de aduladores acreditam que conseguem mudar a realidade disparando meia-dúzia de impropérios contra a imprensa e contra os fatos. Vivem ainda em ritmo de campanha eleitoral e acham que basta açular os cachorros loucos das redes sociais contra o jornalismo profissional e pronto! Tudo estará resolvido! Parecem não se dar conta de que suas hostes antes compactas, falando em uníssono, atuando como ordem unida, já não existem.

Também elas estão divididas entre o puro e simples delírio, agora ressentido, e algum pragmatismo. Os que formam no primeiro grupo estão por aí a vomitar sandices, cobrando, por exemplo, a CPI da Lava Toga. Os da outra turma rejeitam a proposta mentindo para si mesmos e para seus ex-parceiros: "Ah, essa CPI interessa à esquerda". Besteira!

A CPI é inconstitucional. Se constitucional fosse, não interessaria a Bolsonaro porque, numa guerra entre os Poderes que fosse patrocinada pelo Executivo, Bolsonaro seria um alvo fácil. Assim, os primeiros são burros, mas transparentes no seu delírio troglodita. São os Coringas de Internet da periferia do capitalismo. Os outros são menos estúpidos, mas insinceros até diante do espelho. O que escolher? Caras e caros, não existe resposta certa para uma pergunta errada.

Bolsonaro terá de se entender com seus demônios. Ainda que estivesse a fazer um governo extremamente virtuoso, que acenasse, de fato, com o Eldorado, em particular para os mais pobres, é pouco provável que conseguisse tornar hegemônica a sua pauta autoritária. Mas isso também não é verdade, a não ser na voz de alguns aduladores.

LARANJAS DOS PORÕES
Vejam que coisa! A Folha informa na edição de hoje: "Uma dirigente do PSL de Minas Gerais afirmou em depoimento à Polícia Federal que gastos de campanha do hoje ministro Marcelo Álvaro Antônio (Turismo) foram pagos por meio de dinheiro vivo entregue a ela dentro de uma caixa branca da grife Lacoste a dois dias da eleição de 2018. Ivanete Maria da Silva Nogueira — vice-presidente da sigla em Conselheiro Lafaiete, a cerca de 100 km de Belo Horizonte — falou à PF em duas ocasiões, a segunda em 27 de agosto, quando entregou documentos de comprovação da contratação em 2018 de panfleteiros e de um salão para o lançamento, na região, da então campanha de Álvaro Antônio a deputado federal."

Willer Tomaz, advogado do agora ministro do Turismo, afirma que ela não trabalhou na candidatura de seu cliente, mas na do candidato a deputado estadual Celton Mesquita. E, no caso, teria havido uma dobradinha entre ambos. Ivanete entregou a PF fotos de eventos de campanha em que aparecem Álvaro Antônio e seu então assessor Jandir Vieira Siqueira, hoje membro do diretório estadual do PSL em Minas. Teria sido ele a entregar à dirigente partidária, por exemplo, uma caixa com R$ 17 mil em dinheiro vivo para o pagamento de panfleteiros. Nada disso aparece na prestação de contas.

No domingo, a Folha noticiou que Haissander Souza de Paula, também assessor do então candidato a deputado federal e coordenador de sua campanha no Vale do Rio Doce (MG), afirmou à PF "achar que parte dos valores depositados para as campanhas femininas, na verdade, foi usada para pagar material de campanha de Marcelo Álvaro Antônio e de Jair Bolsonaro". O jornal informou ainda que também foi entregue à PF uma planilha que faz referência ao fornecimento de material para a campanha de Bolsonaro com a expressão "out", o que significa, na compreensão de investigadores, pagamento "por fora".

O Ministério Público de Minas já ofereceu denúncia contra o ministro por falsidade ideológica eleitoral, apropriação indébita de recurso eleitoral e associação criminosa. Ele diz que não se demite do cargo, e seu chefe garante que ele fica. Parece que Bolsonaro não quer confusão com um ministro que virou um tronco de enchente no Palácio do Planalto, embora conduza uma pasta, dadas as prioridades que aí estão, irrelevante. Ele só é fonte de desgastes. Mas tudo indica que o presidente não pode se livrar dele. Pois é…

Não vão silenciar a imprensa independente, que continuará a fazer seu trabalho. Com ou sem ameaças e grosserias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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