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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Vês, Janot? Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera

Reinaldo Azevedo

08/10/2019 07h46

Nada mais do que ninguém compareceu ao lançamento do livro "Na menos que Tudo", de Rodrigo Janot (Foto: Marcelo Chello/Folhapress)

Sei lá o que imaginaram os editores quando organizaram uma noite de autógrafos em São Paulo para Rodrigo Janot lançar o seu "Nada Menos que Tudo". Foi um fiasco. Havia lá nada mais do que ninguém.

Apenas 43 pessoas deixaram seus afazeres numa noite razoavelmente fria para se dirigir à Livraria da Vila, nos Jardins, para ganhar uma assinatura do homem que confessa na própria obra seus impulsos homicidas.

O todo-poderoso da Lava Jato; o procurador-geral que tentou depor o presidente Michel Temer duas vezes; o homem de Estado que deu amparo às lambanças da Lava Jato que deixaram como herança o que vemos aí; aquele que até outro dia dizia que, enquanto houvesse bambu, lançaria suas flechas de empáfia… Bem, eis que o homem conhece o reverso da fortuna e o peso da solidão.

Ninguém mais se interessa por aquilo que tem a dizer.

Ninguém se importa com o seu pensamento.

Ninguém dá bola para ele.

É bem verdade que os eventuais leitores podem ter ficado com medo de levar um tiro, nunca se sabe.

Vendo a imagem patética nos sites noticiosos, foi impossível não lembrar de "Versos Íntimos", de Augusto dos Anjos — ou de boa parte do poema:

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

E creiam: quando toda a história for contada, outros que ainda surfam na onda da destruição do debate público, da institucionalidade e da política encontrarão igual destino.

E igualmente conhecerão o reverso do afago e do beijo.

Sim, é verdade: o poema de Augusto dos Anjos é um símbolo do pessimismo e da misantropia. O narrador projeta num outro a sua provável experiência amarga com os de sua espécie. Conheceu a traição, a decepção, a ingratidão. E é aconselhado a ter ao menos um gesto final de altanaria: recusar a piedade.

A personagem Janot é bem mais mesquinha do que isso.

Não creio que sua chaga, para ficar nos termos do poema, cause ainda pena a alguém.

O duro, para o Brasil, é arcar com o custo de sua obra.

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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