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Oração aos Tolos: Para Bolsonaro, perfumados são o filho Flávio e Fabrício

Reinaldo Azevedo

09/10/2019 06h21

"A Morte da Justiça", do ilustrador Gunduz Agayev, do Azerbaijão (Reprodução)

Se a passagem de Bolsonaro pela Presidência não deixar outro legado importante, haverá ao menos este: a "Oração à Imprensa Picareta".

Ao ser indagado sobre as denúncias de tortura sistemática em presídios do Pará sob intervenção federal, o Pastor do Caos resolveu simular um colóquio com Deus no que seria uma oração:
"Deixa eu orar aqui agora. Não sou pastor, não. Meu Deus, lave a cabeça dessa imprensa fétida que nós temos. Lave a cabeça deles, bote coisas boas dentro da cabeça, [para] que possam perguntar, me ajudar a publicar matéria para salvar o nosso Brasil. Eles não viam problemas em governos anteriores. Vamos ajudar o Brasil. Vocês são importantíssimos para salvar o Brasil. Parem de perguntar besteira."

Imprensa fétida?

Cheiroso é Fabrício Queiroz.

Cheiroso é Flávio Bolsonaro.

Cheirosas são as milícias.

Cheiroso é Marcelo Álvaro Antônio.

Cheiroso é o laranjal do PSL.

Cheiroso é o lobby da família presidencial para que a AT&T compre a Warner.

Cheiroso é o esquema de "impulsionamentos" de mensagens no WhatsApp.

Cheiroso é o sangue das vítimas de balas perdidas.

Cheirosa é a denúncia de tortura em presídios sob intervenção federal.

Cheiroso é aquele estranho acordo desfeito com o governo do Paraguai sobre Itaipu.

Bolsonaro usa de forma não intencional, mas com propriedade, um verbo: "lavar". Se pudesse, submeteria a imprensa brasileira a uma lavagem cerebral, hipótese, então, em que esta não apontaria os destrambelhamentos do seu governo.

O presidente da República usa como espantalho um dos poucos entes que hoje juntam as hostes bolsonaristas, que se balcanizaram em "extremistas de direita de extrema-direita" (!) e extremistas de direita de extrema sabujice.

Sim, também o combate ao comunismo ainda une seus sicários de reputações. Mas esse discurso dá sinais de que vem perdendo o fôlego.

MENTIRA
Para além da tolice, há uma mentira desavergonhada na "Oração aos Tolos" de Bolsonaro. A imprensa profissional, da redemocratização a esta data, foi extremamente dura com todos os governos. Ousaria dizer que pega leve com Bolsonaro quando se compara com governantes que o antecederam.

Aliás, o dito "Mito" deveria erguer as mãos para o Céu. Alguns parlamentares tiveram importância decisiva na aprovação da reforma da Previdência. Cito, por exemplo, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ) e o senador Davi Alcoumbre (DEM-AP), presidentes, respectivamente, da Câmara e do Senado.

Fundamental mesmo, no entanto, foi a imprensa. Exceção feita a veículos e páginas de esquerda, o apoio à reforma da Previdência — sem a qual Bolsonaro estaria prestes a cair se já não tivesse caído — foi unânime. Houve até exageros ao tratar com óbvia má vontade, quase como sabotadores, os parlamentares que atuaram para mitigar a mudança.

O presidente da República deve seu cargo àquilo que chamo, sem medo de errar, "trabalho de convencimento" feito pela tal "imprensa fétida".

É bem verdade que não o fez como favor ao mandatário, mas segundo a convicção de que, como estava, a equação previdenciária conduziria o país ao colapso fiscal.

Mas é certo que ele se beneficiou dessa adesão. Deveria, assim, ser grato à imprensa em vez de ofendê-la.

Ocorre, meus caros, que não será nem poderia ser Bolsonaro a reagir mal a acusações de tortura. Como esquecer que sua mente poderosa já afirmou, em julho de 2016, que "o erro [da ditadura] foi torturar e não matar?"

CABEÇAS CORTADAS
Já na Presidência, quando o indagaram sobre o esquartejamento de 16 detentos no presídio de Altamira — no mesmo Pará em que vem à luz denúncia sistemática de tortura a presos —, este grande humanista observou que ninguém dava bola para as vítimas daqueles que, sob a tutela do Estado, foram feitos literalmente aos pedaços.

Ora, se, para ele, o erro está em torturar e não matar, o máximo que poderia dizer sobre a possível tortura de agora é que houve excesso de mansidão nas sevícias, certo?

O erro foi não matar.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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