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Reinaldo Azevedo

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Operação Guinhol, ainda que com motivos, deixa fedentina de Estado policial

Reinaldo Azevedo

15/10/2019 22h15

O cheiro que emana da "Operação Guinhol" contra o presidente do PSL, deputado Luciano Bivar (PE), é o pior possível. Os sinais de caixa dois e uso de laranjas pelo partido estão em toda parte, é verdade. Que a ação mais dura da PF, no entanto, tenha sido deflagrada só agora, com autorização da Justiça Eleitoral, deixa no ar a fedentina do Estado policial a serviço do poderoso de turno: no caso, refiro-me, é evidente, ao presidente Jair Bolsonaro.

Antes que avance, noto que o nome da operação é puro humor involuntário. Guinhol é referência a um fantoche. Certamente alude ao fato de que os laranjas empregados pelo PSL seriam, então, bonecos de mamulengo a serviço de interesses escusos. Cabe a pergunta: a Operação Guinhol não é, por sua vez, uma Operação Guinhol a serviço do presidente da República, mesmo que se venha a provar que Bivar e outros têm culpa no cartório?

Que coisa! O governo está na metade do seu 10º mês, e o bolsonarismo está desmoronando. Não sem coisas bastante deletérias pelo caminho. Vamos ver.

O inquérito foi aberto em março. A PF e o Ministério Público tinham entrado na Justiça em agosto com um pedido de busca e apreensão em endereços de Bivar. A Justiça Eleitoral de primeira instância rejeitou. Houve recurso contra a recusa em setembro. Agora, o TRE de Pernambuco autorizou a operação por seis votos a um.

Um dos advogados de Bolsonaro no seu embate com o PSL é Admar Gonzaga, que foi ministro do Tribunal Superior Eleitoral até abril deste ano. Na sexta, em nome do presidente, ele fez uma notificação extrajudicial ao partido para que este proceda a uma auditoria nas contas.

Em meio à guerra deflagrada ou pelo controle do partido ou para forçar um debandada de deputados sem que, como punição, percam o mandato, dá-se, então, a Operação Guinhol. Pergunto de novo: quem está sendo fantoche de quem nessa história?

Em política, quase sempre, coincidência é como jabuti em árvores. Como o bicho não chega lá sozinho, alguém teve o trabalho de colocá-lo no galho, não é mesmo?

O advogado de Bivar, Ademar Rigueira, emitiu uma nota afirmando ver uma "situação fora do contexto", enfatizando que o inquérito já tem 10 meses, sem, segundo diz, evidências de irregularidades. Na verdade, o texto chama a atenção para o fato de que a busca e apreensão foi autorizada só agora, quando o presidente da República se insurge contra a direção do partido.

E, dentro da linha das obviedades, Admar Gonzaga diz: sim, a ação contra Bivar será usada na "operação desmonte" do PSL, esta capitaneada por Bolsonaro. Gonzaga finge acreditar em coincidências, não em jabutis, e diz sobre a operação: "Foi uma coincidência, mas a Justiça também está atenta. O Brasil continua trabalhando, cada qual em seu setor, e eles vão ter de responder pelo que fizeram ou provar que não fizeram". Esse "provar que não fizeram" é certamente um deslize do nobilíssimo. O acusado não produz prova negativa. Quem acusa é que tem de apresentar a positiva.

E o advogado acrescenta: "Naturalmente, se alguma coisa for desvendada negativamente em face da direção do PSL lá de Pernambuco, a lei será aplicada. Se isso tiver relação com a direção nacional dessa atual gestão, naturalmente também será utilizada".

Existem elementos que justificam que se investigue Bivar? Sim. Em fevereiro, a Folha mostrou que seu grupo político criou uma candidata de fachada em Pernambuco que recebeu do partido R$ 400 mil do Fundo Eleitoral, que é dinheiro público. Em outra reportagem, o jornal revelou que o partido liberou R$ 250 mil de verba pública para a campanha de Érika Santos, uma assessora da legenda.

Bolsonaro, e seu próprio advogado o confirma, usará o que conseguir colher contra Bivar para desmontar o atual PSL e fazer uma espécie de legenda privada com os que toparem segui-lo. Mas é por excesso de moralidade que o faz? Ora, fosse assim, ele já teria demitido Marcelo Álvaro Antônio, Ministro do Turismo, também perdido no laranjal. O que explicaria a sua fúria seletiva?

Obviamente não se trata de insanável divergência ideológica, não é mesmo? Quem tem um Fabrício Queiroz como amigo de fé, irmão, camarada também não tem lá muito apreço pela retidão moral dos coroinhas. Aposta-se menos em encontrar um motivo para a saída em massa de deputados do PSL (mas sem perda do mandato) do que na destituição do atual comando.

Os Bolsonaros estão de olho numa sigla que vai receber, até o fim do ano, R$ 110 milhões só do Fundo Partidário. No ano que vem, há a bolada do Fundo Eleitoral. Ocorre que Jair atua com incrível truculência, como é de seu feitio. Expõe-se, assim, ao contra-ataque de quem pode não aceitar ir sozinho para o buraco, o que deveria ser preocupante para ele e aliados.

Ao conjunto dos brasileiros, duas coisas são relevantes: a primeira é a evidência de que o partido que anunciou a nova moral está implodindo em razão da guerra interna. A segunda, e bem mais grave, é a suspeita de que entes do Estado brasileiro, como a Polícia Federal e a Justiça Eleitoral, estão sendo usados para atingir os adversários da hora do presidente da República.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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